L.I.D.E.R. Ideias e Princípios

L.I.D.E.R. Ideias e Princípios
Imagem da Capa do Livro

sábado, 3 de setembro de 2016

DEZ TESES SOBRE A CRISE DA MODERNIDADE

Após a leitura deste artigo resolvi traduzi-lo e posta-lo para que os alunos e colegas pudessem ler e refletir sobre as ideias propostas nestas TESES. São teses discutíveis, sobretudo do ponto de vista acadêmico, e ampliar as ideias  relacionadas com o que venho propondo para a construção de princípios orientados para uma ECONOMIA ORGÂNICA em substituição a atual Economia Orgânica que nestes mais de 300 anos de desenvolvimento capitalista não conseguiu melhorar as condições ecológicas do Planeta. Vale salientar que uma nova Economia só será possível se conseguirmos superar, entre outras, a questão da propriedade individual subordinativa (PIS) e substitui-la por uma propriedade individual cooperativa (PIC).
O presente post tem fins educacionais e pedagógicos e, como tal, não pode ser reproduzido para fins comerciais sem permissão do editor. Leiam, discutam, reflitam e compartilhem para que cada vez mais alunos, colegas e amigos possam ter acesso a ideias e conhecimentos que são laterais em relação aos paradigmas vigentes de administração e economia. Os comentários são bem vindos.

jueves, marzo 27, 2014    
Víctor M. Toledo
Faz-se uma justa síntese do que significa a crise da civilização industrial ou moderna, a partir de um olhar histórico que contempla a paisagem completa do passado humano e da vida. Considera-se que o dilema central é entre tradição e modernidade, e que para remontar à crise requer-se remontar ao domínio do racionalismo, à dependência da energia fóssil, ao abandono a que se condenou o indivíduo e a fase corporativa do capitalismo. Identifica-se a construção do poder social como a pedra axial de uma ecologia política verdadeiramente emancipadora. Conclui-se que as próximas décadas serão cruciais pois se haverá de viver o conflito supremo entre o macaco demente e o maçado pensante, entre os interesses particulares e perversos e a consciência cósmica. Disso dependerá a sobrevivência da espécie humana ou seu desaparecimento.

1. O Olhar Histórico. Resulta impossível uma visão acertada da crise atual, se se carece de uma perspectiva histórica(1). Porém, não somente da história dos historiadores, senão a história dos arqueólogos, dos paleontólogos, dos biólogos, dos geólogos e dos astrofísicos(2). O panorama revelado pela pesquisa científica, isto é, pelo pensamento racional, oferece dados concretos acerca do devir humano e social, do mundo vivo, do planeta e do universo. Compreender a vida ou o devir do planeta ou a evolução dos hominídeos, resulta necessário para entender os processos sociais. Boa parte da tenacidade humana provem do estreitíssimo olhar dos analistas e estudiosos, de sua ausência de memória, de sua visão quase instantânea, característica inequívoca da própria crise.

2. Crise de Civilização. O mundo moderno é uma invenção social que faz apenas trezentos anos. Uma origem difícil de precisar, porém que se fixa em algum ponto de onde confluem o industrialismo, o pensamento científico, o mercado dominado pelo capital e uso predominante de petróleo. O inicio da ciência pode fechar-se de maneira “oficial” em 1662 e 1666, anos em que se fundaram as primeiras sociedades científicas na Inglaterra e em França. A estreia de um poço de petróleo regurgitando 'ouro negro' ocorreu em 17 de agosto de 1859 no sudeste americano. A industrialização e o capitalismo são processos difíceis de datar, mas ambos não vão além de três séculos.

Na perspectiva da história da espécie, de uns 200.000 anos, a aparição da era moderna ocorreu em apenas “um abrir e fechar de olhos”. Em umas quantas décadas se passou de um metabolismo orgânico a um metabolismo industrial [inorgânico]. A tensão que existe hoje se deve, principalmente, ao que aconteceu nos últimos cem anos, um período que equivale a apenas 0,05% da história da espécie humana. No piscar d’olhos do século passado, todos os processos ligados ao fenômeno humano se aceleraram, aumentando seus ritmos para níveis nunca vistos e gerando fenômenos de tal complexidade que a própria capacidade do conhecimento humano ficou dominada. O século XX foi então a época da consolidação do mundo moderno, industrial, capitalista, racional, tecnocrático e de sua expansão por todo o planeta.

Vivemos uma crise da civilização industrial cuja característica primordial é a de ser multidimensional, pois reúne em uma só trindade a crise ecológica, a crise social e a crise individual, e dentro de cada uma destas uma gama de (sub)dimensões. Isto obriga a orquestrar diferentes conhecimentos e critérios dentro de uma só análise e a considerar seus âmbitos visíveis e invisíveis. Equivocam-se aqueles que pensam que a crise é somente econômica ou tecnológica ou ecológica. A crise da civilização requer novos paradigmas civilizatórios e não somente soluções parciais ou setoriais. Boa parte dos marcos teóricos e dos modelos existentes nas ciências sociais e políticas estão hoje rebaixados, incluindo os mais críticos.

Estamos então no fim de uma época, na fase terminal da civilização industrial, na qual as contradições individuais, sociais e ecológicas se agravam e na qual a norma são cada vez mais os cenários surpresa e a ausência de modelos alternativos. Vista assim, a crise requer um esforço especial, pois se trata de remontar uma época que afetou severamente um processo histórico iniciado a milhares de anos, de relações visíveis e invisíveis: o metabolismo entre a espécie humana e o universo natural.

3. O papel crucial da ciência e da tecnologia. Estes últimos três séculos foram uma sucessão contínua de transformações vertiginosas, inusitadas e até compulsivas. A ciência apoiou através da tecnologia o desenvolvimento do capitalismo e isso impulsionou a níveis inimagináveis, o desenvolvimento da ciência. O conhecimento permitiu a construção de máquinas cada vez mais sofisticadas, de edifícios, pontes, dispositivos, rodovias, substâncias artificiais fontes de energia, materiais diversos, medicamentos, organismos manipulados, meios de comunicação e de transporte. O poder da espécie humana se multiplicou a níveis sem precedentes, tanto para construir como para destruir. O mundo moderno, profano e pragmático, que foi e segue sendo um produto do conhecimento racional, modificou radicalmente visões, instituições, regras, costumes, comportamentos e relações sociais. O conhecimento em íntima relação com a empresa triunfou sobre todas as costas e transformou como nunca antes.

A ciência (e suas tecnologias) a serviço do capital é felizmente dominante, mas não hegemônica. Contrariamente ao que se apregoa e sustenta não há uma só ciência (“A Ciência”) senão muitas maneiras de conceber e de fazer ciência e de produzir tecnologias. No interior da gigantesca comunidade científica existem minorias críticas de contracorrente que buscam uma mudança radical do quefazer científico e a democratização do conhecimento. Por isso, toda superação da crise atual supõe uma mudança radical na maneirar de gerar e aplicar a ciência e a tecnologia. Embora não existam propostas alternativas de conhecimento científico não poderá remontar-se a crise; o conhecimento seguirá encadeado ao capital.

4. Tradição e Modernidade. Uma das chaves para a correta compreensão da crise da modernidade, e sua possível superação, refere-se ao significado cultural dos mundos que se localizam antes ou por fora desse mundo moderno. As periferias espaciais e temporais que por felicidade ainda existem como enclaves pré-modernos ou pré-industriais, são estratégias para a remodelação da sociedade atual. Pelo comum o tradicional se opõe (contrasta) a (com) o moderno.

Durante mais de 99% de sua história, o ser humano aprendeu a conviver e a dialogar com a natureza, ao considera-la uma entidade sagrada e ao conceber aos seus principais elementos como deidades e deuses. Também aprendeu a formar coletivos baseados na cooperação e na solidariedade, na sabedoria dos mais velhos e no uso de uma memória comunitária e tribal. A época de ouro da espécie humana teve lugar há uns 5000 anos quando cerca de 12000 culturas diferenciadas pela língua e distribuídas por todos os habitats do planeta aprenderam a viver em comunidades ou aldeias apoiadas por relações harmônicas com seus recursos locais. A aparição de sociedades não igualitárias cada vez mais complexas, permitiu o aumento da população, do comércio e do conhecimento, porém também desencadeou usos imprudentes dos recursos naturais.

A história que seguiu a essa época de equilíbrio, não foi mais do que a história de uma dupla exploração, social e ecológica, um longo processo de degradação e decadência que alcança seu zênite com o advento da modernidade. Hoje como nunca antes, apesar dos avanços tecnológicos, informáticos e sociais (como a democracia), a espécie humana e seu entorno planetário sofrem os piores processos de exploração e destruição.

No que resta de tradicional no planeta, 7000 povos indígenas com uma população estima em 400 a 500 milhões, se encontram as chaves para a remodelação das relações sociais e das relações ecológicas, hoje convertidas em meras formas de exploração do trabalho humano e da natureza. Por isso resultam de enorme interesse as experiências políticas que vivem países como Bolívia e Equador onde os governos se nutrem de elementos da cosmovisão indígena. Isso não significa uma volta romântica ao passado (tentadora opção), senão a síntese entre tradição e modernidade, que é a dissolução de seu conflito. Pois assim como não se podem eliminar os preceitos resgatáveis do tradicional, tampouco se podem desenhar os dos tempos modernos.

5. A Crise do racionalismo e o reencantamento do mundo. A ciência deu lugar ao novo “cosmo oficial” do mundo moderno. O conhecimento científico revelou o macrocosmos e o microcosmos desconhecidos ambos pelos seres pré-modernos. Sobre este cosmos profano que reconhece todo cidadão moderno, se montam, à maneira de componentes não desejados, toda uma série de outros cosmos secundários, marginais ou alternativos, que se empenham por manter vigente, de mil maneiras, um cosmos sagrado.

Porém o império da razão gerou, por sua vez, uma nova contradição. O racionalismo, que inevitavelmente, separa o sujeito do objeto de sua observação e análise, profanou uma visão do mundo que havia prevalecido e operado exitosamente durante o longo passado, e quebrou a unidade que existiu entre indivíduo, sociedade e natureza. Desta vez, a visão secular, o objetivo e a realidade científica, prometeu aliviar o sofrimento por uma oferta tentadora: a construção de um mundo cheio de satisfatores, confortáveis e seguro, onde a maioria das necessidades estaria satisfeita. Este “mundo feliz” teria como seus fundamentos o uso crescente e aperfeiçoado dos conhecimentos científicos e tecnológicos, pontualmente orientados por um ente econômico superior: o mercado. A fé no progresso, no desenvolvimento e um futuro cada vez maior, compensou a ausência de crenças divinas que se tornou a nova concepção moderna e racional da realidade. Mas esta substituição que deixou para trás o encantamento do mundo, condenou o macaco racional para viver com uma realidade que é analisada e fracionada por meio de instrumentos, equações, fórmulas, teoremas, experimentos, mas novamente não possui qualquer significado como um todo. O ser moderno ficou à deriva, desprovido de bússola; por esta razão é necessário um reencantamento do mundo, uma reconexão do indivíduo consigo mesmo, com os outros e com a natureza, que nada mais é do que o conceito de "bem viver" de visões de mundo indígenas.

6. O Indivíduo esquecido. Num mundo orientado por uma racionalidade instrumental, materialista e tecnocrática, as soluções da crise procuram o sentido comum nos processos de inovação tecnológica, os ajustes ao mercado, os produtos que se consomem, os sistemas de produção, os instrumentos financeiros ou políticos, os meios massivos de comunicação; e muito raramente no indivíduo, no ser e suas expressões mais íntimas, sutis e profundas: sua cultura, sua comunicação, suas problemáticas suas relações com ele mesmo e com os demais, inclusive suas maneiras de organizar-se e de resistir. Não se pode buscar a transformação nas “estruturas externas” e visíveis dos processos vastos e gigantescos da sociedade e da natureza, sem explorar o mundo (interno, doméstico e organizacional) do indivíduo. O ser humano é um ente complexo que busca o equilíbrio entre razão e paixão, pensamento e sentimento, corpo e espírito. É um ser cujas condutas e decisões se regem não somente pelo mundo consciente do dia senão pelo universo inconsciente da noite e dos sonhos. O ser humano, a cultura a qual pertence e que recria suas vidas cotidianas e as instituições e organizações que invente para enfrentar, resistir e remontar a crise, são as chaves ocultas, as dimensões intangíveis que a reflexão crítica deve integrar. É o Ocidente, por fim, olhando o Oriente.

7. A consciência de espécie. Hoje o conhecimento coerente e completo dos processos históricos e atuais, naturais e sociais, permite ao ser humano adquirir uma consciência sem concessões. Um olhar limpo sobre o que acontece. A consciência de espécie permite recobrar uma percepção original do ser humano, hoje quase esquecida ou suprimida na realidade industrial: a de seu pertencer ao mundo da natureza. Também o conduz a restabelecer um comportamento solidário com seus semelhantes viventes (humanos e não humanos) e não vivos e a edificar uma ética da sobrevivência baseada na cooperação, na comunicação e na compreensão de uma realidade complexa.

Sob a consciência de espécie já não só se pertence a uma família, a uma linhagem, a uma comunidade, a uma cultura, a uma nação ou a uma confraria religiosa ou política. Antes de tudo se é parte de uma espécie biológica, dotada de uma história e necessitada de um futuro, e com uma existência ligada ao resto dos seres vivos que integram o habitat planetário e, por suposto, em íntima conexão com o planeta mesmo. A consciência de espécie outorga aos seres humanos uma nova percepção do espaço (topoconsciência) e do tempo (cronoconsciência), que transcende a estreitíssima visão à qual lhe condena o individualismo, o racionalismo e o pragmatismo do homo economicus.

8. A era do poder social. Hoje vivemos o pináculo do capital e, mais especificamente, do capitalismo corporativo. Como nunca antes as grandes companhias tiveram lucros recordes, e não só, entraram em bancarrota, se deram o luxo de ser resgatas pelos impostos cidadãos. Isto foi assim porque o poder econômico subjugou o poder político a tal ponto que em muitos casos é impossível distinguir se se trata de um político que se dedica aos negócios ou um empresário que se dedica à política (aí estão os casos emblemáticos de G. Bush, V. Fox, S. Berlusconi e S. Piñera). Diante desse amálgama de interesses a grande derrotada tem sido a sociedade civil, os cidadãos que viram minguado seu poder de decisão. Hoje, a devastação do mundo da natureza corre paralela à exploração do esforço dos trabalhadores. Sozinho, o capital liberado de bloqueios e restrições destruiria o planeta inteiro se isso fosse rentável, da mesma forma que espremeria até a última gota de suor dos empregados e trabalhadores e abusaria impiedosamente dos consumidores.

O grande desafio é, então, a reconstituição do poder social e do controle cidadão sobre os processos econômicos e políticos. Isso supõe construir ou reconstruir o poder social em territórios concretos. Nesta perspectiva, a superação da crise será a substituição paulatina e gradual das atuais instituições por aquelas criadas pelo poder cidadão. Às gigantescas companhias monopolísticas seguirão as cooperativas, microempresas e empresas de escala familiar; aos grandes bancos, seguirão as caixas de poupança, os bancos populares e as cooperativas de crédito; às cadeias comerciais, o comércio justo, orgânico e direto entre produtores e consumidores. À produção estatal ou privada de energias fósseis e da água seguirá a produção doméstica ou comunitária de energias solares e renováveis e de água; aos grandes latifúndios, base dos agronegócios, as reformas agrárias de inspiração agro-ecológica; aos espaços naturais, cênicos e de espaçamento hoje privatizados, sua reconversão em espaços públicos e gratuitos administrados pelos cidadãos locais. Y, naturalmente, os orçamentos participativos.

9. Revolução ou Metamorfose? Embora muitas coisas mudaram, um preceito que segue vivo não obstante sua obsolescência é a ideia de revolução, de mudança súbita e violenta. Imbuído de uma força épica descomunal, a ideia de revolução encerra dons sagrados como o sacrifício, a entrega, a glória, o heroísmo, tudo o que dá um sentido a existência daqueles que se envolvem. Hoje, na era da comunicação, da informação, do conhecimento e da democracia a mudança social requer novas fórmulas. A sociedade civil organizada, liberada do controle dos poderes econômico e político, deve conformar núcleos, redes, organizações baseadas na cooperação, no conhecimento, na comunicação e na tomada democrática de decisões. A construção do poder social em territórios concretos deve ser um processo expansivo, combinado quando for possível com a tomada do poder político, neste caso com o único fim de consolidar, multiplicar e expandir... o poder social. Isso dá lugar a uma nova ideia de mudança, como processo gradual e acumulativo, e por isso recorda o fenômeno da metamorfose. Deixar para trás a ideia de revolução para substituí-la pela metamorfose outorga uma visão ancorada no cotidiano, expressado em ações concretas e que permite projetar a mudança a curto, médio e longo prazo.

10. Homo sapiens ou Homo demens? Aqueles que conseguem, hoje, vislumbrar claramente a situação que se vive, que a um tempo produz angústia e temor, paralisia ou desilusão, conseguem resgatar a dimensão mais acabada do pensamento crítico. Que não é de esquerda e nem de direita, nem conservador nem progressista, pois hoje as geometrias ideológicas ficaram rebaixadas. Eles adquiriram uma “consciência de espécie”, uma “ética planetária”, uma “inteligência global”.. Esta consciência é fundamentalmente o reconhecimento de que a nossa é também uma espécie mortal, uma espécie que dependendo das ações atuais presentes e futuras pode chegar a desaparecer e que, por isso mesmo, se torna uma espécie ameaçada de extinção. O anterior nos força para fazer as seguintes perguntas: há realmente uma diferença nítida e profunda entre os seres humanos dotados com esta consciência de espécies e a falta dele? Não é essa raça na verdade duas espécies (social, cultural, ontológica) dentro de uma mesma associação biológica? Não estamos, portanto, diante de dois radicalmente distintos membros da mesma espécie biológica? Em suma, não estamos reconhecendo duas espécies diferentes, o “macaco demente” (Homo demens) e o “macaco pensante” (Homo sapiens),de cuja conflitividade e sua resolução dependerá o futuro da humanidade, do resto dos seres vivos e do planeta inteiro?

Notas
(1)  Publicado en: Rojo Amate 2: 7-11. 2010. 
www.rojoamate.com
(2)  Las 10 tesis aquí enunciadas, se encuentran más desarrolladas en mis ensayos: “¿Contra Nosotros? La conciencia de especie y el surgimiento de una nueva filosofía política” (2009). En Polis. Revista de la Universidad Bolivariana, Vol. 8 Nº 22: 219-228 (
www.scielo.cl/pdf/polis/v8n22/art13.pdf.); y “Las claves ocultas de la sostenibilidad: transformación cultural, conciencia de especie y poder social”. En La Situación del Mundo 2010. Icaria Editorial y World Watch Institute. Madrid.

Para citar este artículo:
Referencia electrónica
Víctor M. Toledo, « Diez tesis sobre la crisis de la modernidad », Polis [En línea], 33 | 2012, Puesto en línea el 23 marzo 2013, consultado el 05 febrero 2014.
URL : http://polis.revues.org/8544 ; DOI : 10.4000/polis.8544 

Autor
Víctor M. Toledo
Centro de Investigaciones en Ecosistemas, UNAM campus Morelia, México. Email: vtoledo@oikos.unam.mx
Artículos del mismo autor
¿Contra nosotros? [Texto integral]
La conciencia de especie y el surgimiento de una nueva filosofía política

17/04/2014 http://www.decrecimiento.info/2014/03/diez-tesis-sobre-la-crisis-de-la.html

Administração Sem Gestão. Pão, Paz e Liberdade (ainda que tardia)



sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Leitura, Aprendizagem, Informação e Conhecimento para uma Administração Integral Ý

O Ensino sozinho dificilmente orienta a pessoa para uma real (e significativa) educação, que resulte em alguma forma de Aprendizagem, sobretudo no modelo pedagógico que predomina no processo educacional brasileiro

Ilude-se o mestre que se julga um Ensinador de ideias (de suas ideias, geralmente) para alguém que ainda não sabe e ignora (não conhece) as coisas (valores) do mundo, em especial do mundo dos negócios, como ocorre em diversos cursos de administração, tanto de graduação quanto de pós-graduação. No máximo, o que consegue é tornar o “suposto aprendiz” um exímio repetidor de ideias (as ideias do Ensinador), ou de pensamentos e respostas criadas por outros (autores diversos dentro de uma área de conhecimento).

Infelizmente a Didática de Comenius não nos ajudou em nada para a educação e o desenvolvimento das pessoas e estamos atrasados 300 ou 400 anos em termos de educação e desenvolvimento humano. Este atraso vem se acumulando de forma perniciosa e as famílias que se formaram com base neste modelo ficaram acéfalas (ou com microcefalia intelectual) em termos de educação doméstica. Isto de alguma forma tem hoje como repercussão, em maior ou menor grau, o elevado índice de violência que está destruindo com a juventude do país, além de influir na escassez de profissionais creativos[1] e inovadores. Com isso, o campo fica aberto para a circulação e tráfico de drogas e armas que são usadas para intoxicar a massa e arma-la contra o sistema falido; e (os pedagogos ideologizados) por não terem onde se apoiar – seja em sentido técnico, seja científico e filosófico – apela para a vulgaridade, propagando que o que está ocorrendo na sociedade é próprio dos anarquistas. Não é verdade; isto porque todo o assentamento político atual no país desconhece a ciência política e, menos ainda, a filosofia Anarquista. São poucos os que leram algum texto sobre anarquismo e isto ocorre com muitas filosóficas políticas.

O lado triste (ou fraco e pobre, para não dizer medíocre) deste fato é a formação de uma massa de seguidores cegos ou no máximo míopes, que facilmente são manobrados e tratados nas organizações como meros recursos [...], quando lá conseguem chegar.

O ensino, em sua forma isolada, tende a gerar comportamentos (competências, visão, foco, etc.) reativos nas pessoas. Com isso as pessoas se sentem produtivas (sem nada produzir, efetivamente, por conhecimento próprio), sem, ao menos, perceber que sua cegueira ou ignorância se deve à repetição de soluções que lhes foram impostas e não aprendidas por intuição e creatividade próprias. Estamos instruindo as crianças, jovens e adultos para dominarem apenas o pensamento linear e excluir o pensamento sistêmico. Vale citar que:

A base de toda pedagogia anarquista é, obviamente,  a liberdade. Toda coação e toda imposição não só constituem em si mesmas violações aos direitos do aluno, senão que também deformam sua alma para o futuro e contribuem para criar máquinas ou escravos em lugar de homens livres. (CAPPELLETTI, Cap. 11, E-Book, 2013)

A Administração Integral está mais interessada no des-conhecimento, não apenas no conhecimento que as pessoas dominam, porque conhecimento é passado, algo já concluído e terminado; é erudição, ao qual não se pode mais acrescentar nada, enquanto que des-conhecimento é presente e pode contribuir para a formação de futuros que ainda não aconteceram.

O processo de ensino em vigor no Brasil tende a violentar a intimidade da pessoa, como colocou Philipe Perrenoux em uma entrevista dada no programa de televisão Roda Viva, TV Cultura (em 2003), além de lhe tirar a liberdade de aprender a pensar e a de crear seus próprios pensamentos, suas próprias respostas. Aqui reside uma das diferenças entre Ensino e Treinamento, próprios da Pedagogia, e Aprendizagem e  Desenvolvimento de Pessoas, próprios da Educação. Ainda existem pessoas e profissionais que confundem estes termos (educação e pedagogia) colocando-os em um único sentido ou conceito.

No Ensino (ou através dele) a pessoa adquire ideias e soluções já criadas e as repete por toda a vida (especialização, rotina). Na Aprendizagem (ou através dela) a pessoa constrói pensamentos e valores, elabora e soluciona problemas a partir da percepção interrogativa dos fenômenos e sua respectiva interpretação e desenvolve suas próprias soluções para os problemas identificados. Creatividade e Inovação são próprias da Aprendizagem; Operação, Aplicação Prática e Criatividade são próprias do Ensino.

No primeiro caso (ensino) o indivíduo fica dependendo do raciocínio lógico, geralmente repetindo o que já foi interpretado por outros, no segundo caso (aprendizagem) a ênfase começa no pensar não-lógico e soma-se ao lógico após interpretação do próprio ator (ou pensador-aprendiz). Segundo De Bono, “A lógica é mais um ‘mecanismo de comunicação’ do que um mecanismo de pensamento”. E mais: quando se trata de promover o amadurecimento emocional a percepção se torna mais importante que a lógica e De Bono salienta: “A lógica não muda as emoções; mas quando a percepção muda, as emoções também mudam”. (Op. Cit. 2000, p.39 e 50). Aqui se encontra a base fundamental de nosso ciclo APOR (Atenção, Percepção, Observação, Reflexão).

Outra distinção diz-nos que o ensino ajuda a fixar soluções (consequências) para problemas já identificados (Pensamento Reativo, conforme alguns autores, e Comportamento Reativo, segundo o modelo que aqui estou reelaborando), enquanto que a aprendizagem ajuda a identificar, a partir da atenção, percepção, observação e reflexão (Ciclo APOR) dos fenômenos (deterministas ou não-deterministas), os diversos problemas (questões, fatos, fenômenos, pesquisas) existentes no ambiente organizacional, selecionar as variáveis dependentes e independentes; escolher o método (convergente ou divergente); formular as hipóteses ou soluções; filtrar as alternativas e escolher as ferramentas de ação adequadas; aplicar as ações para alcançar os resultados desejados (visão), tornando-as (proatividade) em atividade (reatividade positiva) construtiva e controlada para serem postas em prática (novos padrões) com o propósito de colocá-las em beneficio do conjunto (equipe, comunidade, organização, etc.).

Outro ponto importante a salientar é o que considera o ensino como função (impositiva, reativa, dominadora) do mestre (Ensinador); enquanto que a aprendizagem é considerada como processo (creativo, transformativo, proativo, colaborativo, cooperativo, amorativo, humorativo, humanizativo, etc.) do aprendiz subsidiado, sempre que necessário, pelo facilitador, coach ou mentor (Aprendedor); cabendo ao aprendiz depositar a confiança ao declarar-se conhecedor de sua ignorância (insipiência) e seu interesse em ser ajudado, em ser formado a partir de uma aprendizagem efetiva, sendo respeitado e não violentado em sua intimidade. Aqui podemos inserir uma assertiva que salienta que o Ensino bloqueia a mente da criança e, consequentemente, do jovem e do adulto, enquanto que a Aprendizagem promove o desbloqueio e a abertura da mente para proporcionar a creatividade.

Para uma leitura que trata também destes elementos sugiro o livro A Avaliação Profissional e o Processo Educacional Brasileiro (2004). Neste livro discuto de forma abrangente as questões relacionadas com a educação, considerando o ciclo EPEA (Extensão, Pesquisa, Ensino e Aprendizagem) como sendo o cerne de um sistema educacional proativo e a base para uma Educação Integral, ao qual agora estou agregando o Processo Dinâmico LAIC (Leitura, Aprendizagem, Informação, Conhecimento).

Para atender à primeira função (do mestre) o estudante (a pessoa insipiente) é forçada a aceitar as soluções desejadas (regras) que são apresentadas pelo Ensinador, sem direito a contestar (cassação da liberdade) a sua validade no ato da ocorrência do fato, para não ser penalizado (reprovado no exame de uma disciplina). O Ensinador impõe soluções uma vez que lhe coube (somente a ele) identificar o problema (as suas variáveis e as possíveis soluções). O Ensinador é um Erudito, portanto tenta transmitir o que ele acumulou: o passado. O Ensino realiza o Que e o Como cabendo ao aluno apenas a obrigação de fixar (decorar) aquilo que o Ensinador explicou.

Para atender à segunda função (do processo) o estudante (a pessoa insipiente) deve estar disposta a investigar e reconhecer sua ignorância (igual a falta de saber e vontade de aprender) e sua vontade de conhecer. Como ele ainda não sabe as soluções do problema que acabou de identificar (?) nos fenômenos considerados, percebidos ou observados, ele necessita (e é obrigado a) crear essas soluções e, para isto, não deve ter medo de errar. Neste caso, o “erro é uma benção”, como diz um aforismo japonês, porque somente a partir dele podem-se identificar as possíveis soluções (hipóteses), experimentá-las e escolher a melhor, que agregue maior volume de valor, e a pessoa, neste processo, se torna um A-prendiz (Ser Livre) para voar sozinho. Veja a narrativa a seguir.

  Existem algumas histórias de ficção que ajudam a compreender esta metáfora do Ser Livre e uma delas é a de Fernão Capelo Gaivota (BACH, s. d.). Nesta história a recusa de Fernão em ser mais uma mera gaivota como seus companheiros é um exemplo de luta contra o seu Ensinador que queria treiná-lo (adestrá-lo) apenas para conseguir garantir sua alimentação. Para a maioria, o importante não é voar, mas comer. Para esta gaivota [Fernão], contudo, o importante não era comer, mas voar (salienta BACH, s.d., p.15). Fernão desejava ter um Aprendedor que lhe permitisse escolher entre comer e voar; comer, ainda que, com algumas raras orientações possíveis, qual a sua solução para o voar, o pescar, o reunir-se em bandos, e não lhe impor essas (as dele, do Ensinador) soluções. O Caminho de Fernão assemelha-se ao itinerário (caminho) do herói segundo Campbell (citado por KOFMAN, 2001, p.168). Fernão reconhece sua ignorância, sua insipiência, seu des-conhecimento – primeiro passo para a busca da sabedoria –, e isto o ajuda a definir uma visão para a sua vida. Ser sábio é saber-se des-conhecedor e isto Fernão logo aprendeu. Ao afirmar onde deseja chegar, Fernão também se preocupa com o prazo, com as metas e define um foco. Ele identifica um problema em sua existência: Por que ele deveria ser igual às demais gaivotas? E como ele deveria SER? E, mais: O que ele deveria fazer para alcançar aquilo, aquele desejo, aquele sonho que ele desejava SER, o de aprender a voar? Ele viu longe. A visão longa (de longo alcance, de longo prazo) é uma arte própria dos visionários, dos líderes proativos, mas só é importante se conseguir alcançar metas e focos ousados (em curto prazo). Isto é próprio das pessoas a-prendizes e, raramente, é encontrado nas pessoas a-lunas ou dependentes de en-sino. E ao negar-se diante do que se prometera após ouvir o chefe do bando, Fernão torna-se livre. As promessas de momentos antes estavam esquecidas, varridas por aquele enorme vento rápido. E, contudo, não sentia remorso por não cumprir as promessas que fizera a si próprio. ‘Essas promessas são só para as gaivotas que aceitam o vulgar. Quem conseguiu chegar à excelência da sua aprendizagem não tem necessidade desse tipo de promessa’. São as palavras contundentes de Fernão, as quais se assemelham ao sentido que se dá sobre organizações de aprendizagem.

Como afirma Kofman (2001), a aprendizagem não é algo que ‘outro lhe dá’ senão um desenvolvimento de competências pessoais que realiza por si mesmo (possivelmente com a ajuda de outro). Ao proceder assim, a pessoa começa a sua viagem a partir do nível de ignorância (insipiência) para o nível de iniciante (incipiência), em seguida para o nível de incompetência e deste para o de competência; e assim, durante toda a vida, estamos sempre circulando, de um nível a outro, porque sempre existe algo novo, desconhecido, que necessita ser aprendido por nós. Este é o Caminho do Aprendiz. Deixar de ser uma mera gaivota ou de ser mais uma ovelha (ver história do tigre que se criou no meio de um rebanho de ovelhas, cf. KOFMAN, 2001); é o desafio de todo aprendiz para assumir a responsabilidade de aumentar sua competência (KOFMAN, 2001, p.187).

Considero aqui que a aprendizagem tende a conduzir o a-prendiz mais efetivamente a acumular certo volume de aptidões que vão resultar de forma importante para a construção das habilidades essenciais e, por consequência, na construção da maturidade do indivíduo. Yus (2002) procura mostrar esta discussão quanto à educação em relação à individualidade do indivíduo. Neste sentido, este Autor considera válido que

O estilo de aprendizagem depende de dois fatores: as habilidades perceptivas (significados com que captamos a informação: abstrato ou concreto) e as habilidades de pensamento (formas em que organizamos, sistematizamos e dispomos da informação: sequencial ou aleatória). A combinação dessas habilidades se dá a partir de quatro tipos básicos de estilo: organizado (concreto-sequencial), inventivo (concreto-aleatório), analítico (abstrato-sequencial) e sensitivo (abstrato-aleatório), faz com que cada um deles seja mais receptivo para determinados tipos de atividade. (YUS, 2002, p.57)

Enquanto o alumni (a-luno, equivalente a “sem luz”, não iluminado) se mantém como um receptor passivo do ensinamento, portanto submisso às ideias e às mensagens do Ensinador; o a-prendiz vai mais longe, ele é mais corajoso e ousado, portanto proativo e aceita, ou não, as ideias do seu Aprendedor, e faz delas sua base de aprendizagem, ou não.

Ao contrário do aluno, o aprendiz não tem medo de errar porque sabe que no erro se encontra alguma oportunidade significativa para aprender a ser competente. Errar tendo como base o Pensar é diferente do errar com base no decorar (Fazer). Ele age como um ator proativo diante de cenários graças a sua visão prospectiva, ou seja, posicionada no longo prazo, no futuro, sem perder o contato com o mundo hoje (presente). O autêntico aprendiz se permite cometer erros sem recriminar-se, pois sabe que a única maneira de aprender é tratar de fazer coisas que excedem sua área de competência (KOFMAN, 2001, p.187).

Vale salientar a guisa de conclusão deste tópico, a relação que existe entre ensinar ou colocar na cabeça de outrem pensamentos e ideias que não foram criadas por ele, e entre aprender e pensar ou criar seus próprios pensamentos. Na primeira situação o indivíduo não é dono de suas ideias, ou melhor, ele não constrói ideias próprias. Em resumo, ele não é um pensador e também não poderá ser creativo. No máximo poderá ser criativo na realização das operações, das suas atividades. Como expressa Basin (2003, p.129)

Pensar é a única avenida para tornar-se criador consciente. Só o pensamento original tem energia potencial suficiente. O pensamento de outrem que você memoriza não tem potencial criativo, a não ser para quem o pensou inicialmente. Para ser criativo, a estrutura interna do pensamento precisa ter potencial para tornar-se uma forma-pensamento.

Neste raciocínio repousa uma afirmação que formata minha teoria pedagógica/andragógica voltada para a liberdade através do pensar ou para o a-prender e isto é o que menos se faz nas escolas e nos cursos desde o jardim de infância até o curso superior.

O indivíduo não aprende nada nas nossas escolas senão apenas a memorizar alguns pensamentos de outros indivíduos. Não aprender a pensar, a perceber e a observar é um caminho que leva a pessoa a se tornar algo inútil ou mesmo insignificante para o mundo porque não foi dotada de energia suficiente para auto-organizar-se e ampliar sua consciência do mundo; como é própria da segunda situação da assertiva anterior. Ainda dentro do raciocínio de Basin (2003, p.129) encontrei uma proposição que coincide com as minhas ideias sobre o que se tem denominado de pedagogia, como seja:

Infelizmente, as escolas não ensinam nem incentivam os alunos a pensar. O sistema educacional está todo baseado em estudar e memorizar o que foi dito ou feito anteriormente. O pensamento original não é bem-vindo. Como você pode conhecer a arte de pensar, se ninguém lhe ensinou? A maioria da população precisa compreender que a única maneira de sair de uma situação indesejável é fazer algo que esteve evitando toda a sua vida. As pessoas têm de “fazer seu próprio pensamento”. Precisam estudar e praticar a arte de pensar. (BASIN, 2003, p.129).

No momento em que a pessoa começa a aprender a pensar tende a sair de sua caverna mental, na qual esteve o tempo todo aprisionada pelos pensamentos de outras pessoas, e inicia seu processo de voar sozinha; isto tende a conduzi-la na direção do conhecimento proativo, e somente através deste é que o homem começa a nascer verdadeiramente. De acordo com Buzzi (1988, p.15),

Foi Parmênides de Eléia (540-450 a. C.), pensador da Grécia antiga, quem por primeiro mostrou, num discurso incomparável, que nosso pensamento está na necessidade de ir além de si... em direção ao real, à procura do ser. Por causa disso precisa aprender a pensar. Quanto mais aprende a pensar, mais se torna conhecimento que deixa transparecer que ao pensar se torna semelhante ao ser. (Grifo acrescentado). (BUZZI, 1988, p.15)

Portanto, para seguirmos no sentido de uma Administração Integral, na qual o homem esteja sempre posicionado como a parte pensante do processo, é preciso que ele aprenda a pensar; e para isto torna-se necessário que o ensinamento seja substituído pela aprendizagem, o treinamento pelo desenvolvimento, desde a escola até à organização, e que as próprias escolas e faculdades se tornem organizações de aprendizagem. Precisam seguir um processo LAIC que envolve tanto o sistema diretivo da organização educacional, quanto os facilitadores e mentores que vão aplicar os elementos para estimular o processo de aprendizagem.

Para que isto se realize a empresa deve começar a tratar seu pessoal não mais como recurso, uma vez que recurso não pensa, apenas faz quando muito. Precisa considerar que as pessoas são sistemas complexos e, como tais, precisam ser livres.
Referências
BASIN, Gennady. A arte de Se Tornar. São Paulo: Madras, 2003.
BACH. Richard. Fernão Capelo Gaivota. Rio de Janeiro: Record, 2003.
BUZZI, A. R. Introdução ao Pensar. O Ser, o Conhecimento e a Linguagem. Petrópolis: Vozes, 1989.
CAPELLETTI, Angel J. La Ideología Anarquista. Buenos Ayres: Libros Tauros, E-Book, Baixado de www.librostauro.com.ar em 24/12/2013.
DE BONO, Edward. Novas Estratégias de Pensamento. São Paulo: Nobel, 2000
KAUFMAN, Freddy. Metamanagement. Buenos Ayres: Granica, 2001, Vol. I.
SILVA, J. M. A Avaliação Profissional e o Processo Educacional Brasileiro. Vitória da Conquista: UESB, 2004.
YUS, Rafael. Educação Integral. Porto Alegre: ARTMED, 2002.




Ý Capítulo 4 do livro “Administração Integral e Organização Holística” em fase de revisão para publicação.
[1] Uso em algumas frases a palavra creativo em lugar de criativo quando estou me referindo ao Ato de Pensar e uso a segunda forma para o Ato de Fazer. Procuro com isto diferenciar a creatividade da criatividade usando o sentido original da palavra no verbo criar que vem do latim creare. Considero crear como a forma plena de usar as habilidades cognitivas, ou seja, o Pensar em sua forma holística e criar para a forma plena de usar as aptidões  ou a capacidade para Fazer. Curiosamente, nosso idioma é o único neolatino que usa o verbo na forma criar. V. Hubert Rohden, Educação do Homem Integral. São Paulo: Alvorada, 1984.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Sobre a Deficiência Educacional

Em continuidade das discussões que venho apresentando neste espaço e no Facebook vou copiar um artigo de Stephen Kanitz (escrito em 2000) que mostra um dos vetores que contribui para a deficiência de nosso processo educacional. Compartilho para que os colegas e alunos possam compreender o que nós tentamos e as vezes não conseguimos realizar em uma sala de aula. Vamos ao artigo:

Stephen Kanitz

Revolucione a sala de aula

"Na vida você terá de ser aprovado pelos
colegas
 e futuros companheiros de trabalho,
não pelos seus
 antigos professores" 

Ilustração Ale Setti

Qual a profissão mais importante para o futuro de uma nação? O engenheiro, o advogado, o administrador? Vou decepcionar, infelizmente, os educadores, que seriam seguramente a profissão mais votada pela maior parte dos leitores. Na minha opinião, a profissão mais importante para definir uma nação é o arquiteto. Mais especificamente o arquiteto de salas de aula.

Na minha vida de estudante freqüentei vários tipos de sala de aula. A grande maioria seguia o padrão usual de um monte de cadeiras voltadas para um quadro-negro e uma mesa de professor bem imponente, em cima de um tablado. As aulas eram centradas no professor, o "locus" arquitetônico da sala, e nunca no aluno. Raramente abrimos a boca para emitir nossa opinião, e a maior parte dos alunos ouve o resumo de algum livro, sem um décimo da emoção e dos argumentos do autor original, obviamente com inúmeras honrosas exceções.
Nossos alunos, na maioria, estão desmotivados, cheios das aulas. É só lhes perguntar, de vez em quando. Alguns professores adoram ser o centro das atenções, mas muitos estão infelizes com sua posição de ator obrigado a entreter por cinqüenta minutos um bando de desatentos.
Não é por coincidência que somos uma nação facilmente controlada por políticos mentirosos e intelectuais espertos. Nossos arquitetos valorizam a autoridade, não o indivíduo. Nossas salas de aula geram alunos intelectualmente passivos, e não líderes; puxa-sacos, e não colaboradores. Elas incentivam a ouvir e obedecer, a decorar, e jamais a ser criativo.
A primeira vez que percebi isso foi quando estudei administração de empresas no exterior. A sala de aula, para minha surpresa, era construída como anfiteatro, onde os alunos ficavam num plano acima do professor, não abaixo. Eram construídas em forma de ferradura ou semicírculo, de tal sorte que cada aluno conseguia olhar para os demais. O objetivo não era a transmissão de conhecimento por parte do professor, esta é a função dos livros, não das aulas.
As aulas eram para exercitar nossa capacidade de raciocínio, de convencer nossos colegas, de forma clara e concisa, sem "encher lingüiça", indo direto ao ponto. Aprendíamos a ser objetivos, a mostrar liderança, a resolver conflitos de opinião, a chegar a um comum acordo e obter ação construtiva. Tínhamos de convencer os outros da viabilidade de nossas soluções para os problemas administrativos apresentados no dia anterior. No Brasil só se fica na teoria.
No Brasil, nem sequer olhamos no rosto de nossos colegas, e quando alguém vira o pescoço para o lado é chamado à atenção. O importante no Brasil é anotar as pérolas de sabedoria.
Talvez seja por isso que tão poucos brasileiros escrevem e expõem suas idéias. Todas as nossas reclamações são dirigidas ao governo – leia-se professor – e nunca olhamos para o lado para trocar idéias e, quem sabe, resolver os problemas sozinhos.
Se você ainda é um aluno, faça uma pequena revolução na próxima aula. Coloque as cadeiras em semicírculo. Identifique um problema de sua comunidade, da favela ao lado, da própria faculdade ou escola, e tente encontrar uma solução. Comece a treinar sua habilidade de criar consenso e liderança. Se o professor quiser colaborar, melhor ainda. Lembre-se de que na vida você terá de ser aprovado pelos seus colegas e futuros companheiros de trabalho, não pelos seus antigos professores.

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
 Leiam, interpretem e façam suas reflexões sobre as questões que podem ser construídas a partir deste texto.
Administração Sem Gestão. Pão, Paz e Liberdade (ainda que tardia)

sábado, 19 de setembro de 2015

AS CAPACIDADES ESSENCIAIS COMO SUPORTE PARA AS HABILIDADES ESSENCIAIS


“Aprender é remar contra a corrente; é só parar, e anda-se para trás” (Adágio Chinês)

Tenho falado e discutido sobre a importância e o significado das Habilidades Essenciais (HA) para o desenvolvimento de Sistemas Humanos Integrais (SHI) e mostrado como é importante dominar e sempre atualizar essas habilidades para que tenhamos capacidade de tomar decisões. Enquanto discutia a importância e o valor das seis habilidades principais para um Administrador de sucesso, percebi que elas se tornavam eficientes e práticas devido ao suporte ou apoio das Capacidades Essenciais (CA) que estão nas suas bases e no entorno, as quais consolidam as Competências Essenciais (CE). Repito apenas para lembrar quais são as seis habilidades essenciais: a) Humanas e Sociais; b) Conceituais e Interpretativas; c) Técnicas e Experienciais [que formam as Habilidades Pragmáticas, Molares]; d) Heurísticas e Intuitivas; e) Praxiológicas e Decisionais; f) Emocionais e Espirituais [que formas as Habilidades Inovadoras, Moleculares]. Tem-se, assim, que as habilidades devem resultar em capacidades, sem o que as estratégias criadas durante os planejamentos podem não alcançar essas competências. Tem-se, então, que o foco central para onde convergem as Habilidades e as Aptidões é a Capacidade que o Administrador irá dominar para aplicar no Processo Decisório. E o que significam as Capacidades Essenciais?

Primeiro vamos entender um pouco o que significa Capacidade e como a vemos dentro de um ambiente organizacional, com Administração Integral, em apoio à tomada de decisões. Existem vários significados no dicionário para esta palavra e alguns deles estão diretamente relacionados com a forma como conceituo Habilidade e Aptidão. Contudo, quando a capacidade expressa habilidade e/ou aptidão a palavra, em sentido isolado, não consegue dar maior força ou sentido ao que trato como essencial e não-essencial, o que requer uma ampliação aplicativa para o seu significado. Assim, para conseguirmos perceber melhor como a capacidade contribui para aumentar as ações das Habilidades Essenciais, vamos ajusta-la às preposições que lhe seguem como forma de expandi-la. Como assim?

Vamos, então, à nossa segunda proposição que trata da palavra capacidade preposicionada, ou seja, acrescida de uma preposição, para dar o sentido que necessitamos quando formos nos referir a habilidades e aptidões. Deste modo poderemos dizer que existem pelo menos dois caminhos significativos preposicionados que nos orientam para compreender o papel da capacidade no desenvolvimento dos atributos que ajudam no processo de tomada de decisão. Escolhi duas preposições que considero fortes quando associadas a um substantivo: “de” e “para”. Em seguida identifiquei na minha apreciação estes dois caminhos: a) Capacidade de... ; e b) Capacidade para..., os quais passo a discutir.

Apreciem como o uso das preposições “de” e “para” dão sentidos (fortes) distintos à aplicação prática das capacidades; isto possibilita identificar quando uma capacidade é essencial, e complementa o domínio cognitivo na direção da prática no ambiente organizacional, em especial quando os colaboradores e líderes/diretivos são preparados com o Sistema L.I.D.E.R. (Ler, Interpretar, Desenvolver, Estudar, Realimentar) e dominam o Ciclo APOR (Atenção, Percepção, Observação, Reflexão). Estas duas ferramentas (L.I.D.E.R. e APOR) contribuem para o aperfeiçoamento das Habilidades Essenciais e, por reflexão, das Capacidades Essenciais dos Sistemas Humanos Integrais que atuam dentro de uma empresa ou instituição; estas são também importantes para a vida pessoal, sobretudo quando a pessoa possui um foco de atualização segundo os princípios de Individualismo Cooperativo.

O caminho promovido pela condição Capacidade De contribui para o Sentir e o Pensar antes de o Praticar e o Fazer, tanto para as Habilidades como para as Aptidões, embora seja mais requerido para as primeiras, visto que sem o Pensar as Habilidades Essenciais podem não ser produtivas e nem contribuir para a eficácia das Aptidões nas organizações. Já a Capacidade Para contribui para o Fazer depois de o Pensar e tende a tornar as Aptidões mais consistentes, práticas e eficientes. Quando adicionamos um verbo a estas expressões a importância para as Habilidades Essenciais se destacam e isto nos conduz a um conjunto de Capacidades Essenciais para realizar as Ações e Atividades de Administração de uma unidade produtiva, de uma organização, de uma sociedade, de um país.
Quando dizemos Ser Capaz De ou Ser Capaz Para estamos falando de duas ações distintas mas congruentes. Quando uma pessoa é capaz de, ela está estimulando os domínios de suas habilidades, a fim de proporcionar energia suficiente quando se está diante de um problema, ou se está identificando o fenômeno que gerou o problema dentro de uma empresa ou mesmo na vida real. Neste momento o Administrador dedica todo o seu APOR para construir as ideias e elaborar as estratégias que resultem em soluções; essas estratégias deverão ser direcionadas para a próxima condição operacional ou de gestão, geralmente a cargo de gerentes, supervisores, coordenadores cooperativos, colaboradores, os quais devem estar preparados em suas condições relativas de ser capaz para por em atividade as ações propostas no nível anterior (ser capaz de).

Assim, podemos salientar que a condição Capacidade De, envolve os valores que pertencem a um indivíduo, algo que lhe é próprio, subjetivo e intrínseco a seu ego, sua inteligência, sua esfera cognitiva; em algumas ocasiões tratamos esta condição como conhecimento tácito, intuição, emoção, razão, espírito, cooperatividade, criatividade, inventividade e competitividade e resumimos na Arte de Pensar. Esta Arte o indivíduo aprende ao longo de sua vida. Vale lembrar aqui as palavras de Sócrates no momento em o efeito da cicuta já chegava ao nível do seu tórax: “...Eu sei que nada sei” mostrando que até no momento da morte podemos estar aprendendo a pensar ou ainda não conseguimos nos completar. Ninguém nasce sabendo pensar e quando deixamos ou retardamos o processo de aprendizagem do Pensar nos tornamos um ser que não consegue caminhar no sentido de sua completude. Todo conhecimento que acumulamos no hemisfério esquerdo do cérebro foi construído depois do nascimento e ao longo do crescimento. Essa acumulação quando se associa à maturidade torna a pessoa mais preparada para a vida em harmonia com os demais seres da natureza. Quando ocorrem falhas de maturidade esse hiato entre o que pensamos e o que fazemos pode se tornar uma arma perigosa para a pessoa e para os demais seres da natureza. Chamo essas falhas de “Desvios Ontogenético”.

A falta de aprendizagem da Arte de Pensar representa o desvio das Capacidades Essenciais do Bem, e orientadas a um processo decisório eficiente; esse desvio conduz ao sentido de Capacidades Não-Essenciais que ocupam e consomem muito tempo tornando-o improdutivo e que, na maioria dos casos, resultam em conflitos, violências, vícios e uso de mecanismos instintivos semelhantes aos animais. Ou seja, quando fazemos usos de Capacidades Não-Essenciais (ou Capacidade do Mau)  priorizamos as experiências instintivas que estão acumuladas em nosso cérebro reptilíneo desde nossa origem e evolução (filogênese) do nível animal para o do hominídeo. Ao darmos ênfase às Capacidades Não-Essenciais estamos alimentando hábitos nocivos a nossa própria existência no ambiente natural e ao próprio ambiente, com o que comprometemos nossa evolução e continuamos inconclusos.

O que buscamos com o Desenvolvimento de Sistemas Humanos (DSH) nos Projetos SHENG.COM é priorizar as Capacidades Essenciais, por isso enfatizamos que uma das condições para tal desenvolvimento (ontogênese) é a aprendizagem das cinco artes ou domínios que compõem o Sistema L.I.D.E.R., o qual atua como um sistema motriz, para começarmos a aumentar, gradativamente, essas capacidades.

Outro ponto que evidenciamos em nosso estudo refere-se à distinção que fazemos entre Ação e Atividade. Observamos que as Capacidades Essenciais estão mais relacionadas com a Ação que com as Atividades, enquanto as Não-Essenciais tendem a se utilizar mais das Atividades que das Ações. Um roubo, um crime, uma atitude corrupta, um vício, são indicativos de baixo conteúdo de Capacidade Essencial no cérebro de um indivíduo. Uma pergunta que costumo fazer, quando estou no processo de conversação estratégica com os colaboradores e executivos de uma empresa, é: “Você é fumante?” Se o colaborador responder que sim, então faço uma segunda pergunta que considero fundamental: “Você considera a atividade de  fumar cigarros (ou outro produto) essencial para a sua qualidade de vida?” A resposta geralmente é um tanto atrapalhada porque a pessoa considera geralmente o vício de fumar algo bom, agradável, prazeroso e divertido, e estas supostas atividades de caráter lúdico negativo e improdutivo eles acham interessantes quando, pela evidência demonstrada cientificamente, a atividade de fumar é prejudicial à saúde do Homem. Este é apenas um exemplo e podemos perceber muitos outros em que as pessoas nem percebem que estão agindo através de uma capacidade não-essencial que pode lhe ser prejudicial e ao seu trabalho e, em muitos casos, colocar em risco a saúde e a vida. O mesmo podemos dizer sobre decisões tomadas sem o devido APOR que podem levar um processo produtivo a perdas materiais graves e, até, humanas. Alguns desastres que foram registrados pela história recente mostram como tomar decisões, sem levar em consideração as Capacidades Essenciais, resultaram em prejuízos materiais a empresas e ceifaram vidas de colaboradores, população e biodiversidade.

Casos como a explosão da fábrica de gás isocianato de potássio, da Union Carbide, em Bopal, na Índia, do mega petroleiro Valdez da Exxon que explodiu no mar do Alaska, de Chernobil, Apolo 11, até a queda de aviões e de prédios construídos com materiais sem qualidade para reduzir custos, são clássicos. Contudo, os microacidentes que resultam do déficit de APOR de chefes, coordenadores, supervisores e funcionários, quando somados, podem resultar em grande prejuízo para empresas, instituições e para o país. O Sistema L.I.D.E.R. pode contribuir para a Administração de Riscos que é hoje uma área importante para os profissionais de Administração dentro das empresas de qualquer tamanho, mesmo aquelas empresas intensivas em conhecimento e tecnologia.

Vejamos agora em que resulta para os sistemas humanos e para a empresa a Capacidade Para. Enquanto o líder estrategista se ocupa em formular ou traçar diretrizes estratégicas para ação utilizando-se de sua Capacidade De, o gerente (gestor) com base em sua Capacidade Para conduz as atividades dos sistemas produtivos e procura aplicar as táticas necessárias para que as estratégias sejam bem sucedidas. Ele, o gerente, Líder de Atividade, precisa estar preparado com as Habilidades Essenciais necessárias para realizar ou colocar em prática as Capacidades Essenciais que são requeridas em determinada obra, produção, negociação, etc. através das estratégias definidas pela Capacidade De proporcionadas pelos líderes de ação da empresa.

Um ponto comum a ambos, diretor/executivo (líder de ação) e gerente/gestor, (líder de atividade), envolve a necessidade de aceitar como importante para o desenvolvimento dos negócios a existência de conflitos e problemas e, até, de alguns erros. Uma experiência vivida em uma companhia japonesa chamou-me a atenção certa feita. Ao final de um turno de trabalho de zero hora, quando às sete horas estávamos concluindo os relatórios das atividades de produção do turno e, no espaço do diário de produção, destinado a registrar ocorrências, problemas, defeitos em máquinas e em produtos, não havia sido registrado nada. Quando entreguei ao supervisor japonês nosso relatório ele sentou-se no escritório e começou a chorar. Quando perguntei se ele estava chorando com saudades da família ele disse: “Não”, ao que perguntei novamente: “Qual ou quais os motivos de você estar chorando?”, e a resposta foi inusitada para mim que estava sempre buscando o optimum nos processos produtivos da fábrica; ao que ele respondeu: “No Japão, quando encerramos uma jornada ou turno sem problemas ou ocorrências é um sinal de que nos turnos seguintes vão aparecer muitos problemas e isto não é bom”. Ao que ele completou: “Encerramos o turno e vocês podem ir para casa, mas eu fico na fábrica para cooperar com o próximo supervisor”. Esta constatação mostra como a cultura oriental avalia as coisas essenciais e as não-essenciais e se dedicam a otimizar, cada vez mais, as coisas essenciais, e descartar ou minimizar e até buscar superações para eliminar ou fazer com que se possa reduzir a zero, as não-essenciais.

Aqui entra mais um ponto interessante para este tema das Capacidades Essenciais, que se refere à questão que vem sendo discutida por muitas pessoas, sobre a polarização dicotômica como um fator improdutivo dentro de um sistema complexo. Discutirei isto no próximo post com o tema A POLARIZAÇÃO DE IDEIAS, ARGUMENTOS E AÇÕES COMO VANTAGEM COMPETITIVA. As ideias aqui expressas se baseiam no livro que devo lançar em breve: L.I.D.E.R. Ideias e Método que trata deste e de outros temas. Quando o livro entrar no prelo, informo o valor e como fazer a pré-compra do exemplar e espero contar com os estudantes, colegas e profissionais para leitura e discussão de nossas ideias. Deverei disponibilizar sem custo um capítulo do livro neste Blog.

Administração Sem Gestão. Pão, Paz e Liberdade.

sábado, 29 de agosto de 2015

BIOECONOMIA, BIODIVERSIDADE E BIODECRESCIMENTO

A narrativa a seguir, extraída do livro de Joseph Townsend (apud HARDIN, 1989), relata em sentido metafórico, o processo de crescimento em uma sociedade ou organização humana, o qual denomino de crescimento amebiano ou não diferenciado ou inorgânico.

O Texto é semelhante a uma lenda ou história do tipo "era uma vez", mas se trata de uma teoria, que poderíamos chamar de neo-malthusiana, formulada em 1786 e que procurava mostrar os efeitos da superpopulação sobre o desenvolvimento de sistemas vivos, antes mesmo de Adam Smith publicar o seu conhecido "A Riqueza das Nações. Vejamos, então, o texto de Townsend:


Nos Mares do Sul há uma ilha chamada Juan Fernández em homenagem ao seu descobridor. Neste lugar remoto, Juan Fernández fundou uma colônia de cabras com um macho e uma fêmea. Este par feliz encontrou em abundância pastos pelo que, sem a menor dificuldade, obedeceu ao primeiro mandamento: crescer e multiplicar-se, até que, com o tempo, sua ilha se encheu de cabras. Antes que isto sucedesse desconheciam a miséria e a necessidade e até pareciam orgulhosas de seu número, porém a partir de então começaram a padecer de fome. Contudo, por algum tempo seguiram-se multiplicando em tal grau que se tivessem o dom do raciocínio haveriam compreendido que se aproximava uma fome. Diante disso, desapareceram primeiro os mais fracos e a abundância ressurgiu. Entraram, assim, em ciclos de felicidade e miséria, com abundância quando a população diminuía e escassez se esta aumentasse; nunca conseguiram a estabilidade, porém quase sempre a quantidade de alimentos era equilibrada. O equilíbrio foi quebrado de vez em quando, seja por epidemias ou pela chegada de um navio em desgraça. Em tais ocasiões, a população se reduzia consideravelmente, porém para compensar a situação alarmante e consolar-se pela perda de seus companheiros os sobreviventes sempre recuperavam de imediato a abundância. Já não temiam a fome, já não se olhavam com desconfianças, todos viviam na abundância, todos estavam contentes e felizes. Assim, o que se poderia fazer considerando uma desgraça se convertia em uma fonte de comodidade e, ao menos para eles, o mal parcial constituía o bem universal.

Para prejudicar os corsários ingleses que invadiam a ilha em busca de provisões, os espanhóis eliminaram as cabras deixando na praia um casal de galgos [uma raça de cães]. Os cães cresceram e se multiplicaram de acordo com a quantidade de alimentos disponíveis; os resultados foram os previstos pelos espanhóis: escassearam os alimentos das cabras. Se estas desaparecessem totalmente os cães também desapareceriam. Isto não ocorreu assim porque muitas cabras se retiraram a níveis inacessíveis para os cães e desciam aos vales só o tempo necessário para alimentar-se com temor e circunspecção; fora as descuidadas e as temerárias poucas se convertiam em presas e só os cães mais alertas, fortes e ativos conseguiam comida suficiente. Estabeleceu-se, assim, uma nova classe de equilíbrio. Os mais fracos de ambas as espécies foram os primeiros em pagar sua dívida com a natureza; os mais ativos e vigorosos preservaram sua vida. É a quantidade de alimentos o que regula a quantidade de população da espécie humana. Nos bosques e no estado selvagem o número de habitantes pode ser pequeno, porém quase ninguém padece de escassez. Enquanto abundem os alimentos, os homens continuarão crescendo e multiplicando-se; cada homem poderá sustentar sua família, ou ajudar aos seus amigos, em proporção direta a sua atividade e sua força. Os fracos dependem da abundância precária dos fortes e os preguiçosos, cedo ou tarde, padecem a consequência natural de sua indolência. Se se introduzisse uma comunidade de bens e ao mesmo tempo se desse a cada homem a liberdade de casar-se, em princípio aumentaria a população, porém não a soma total de sua felicidade, e gradualmente, quando todos estivessem reduzidos à escassez e à miséria, os mais fracos começariam a perecer.

A forma linear como estamos discutindo uma maneira de mudança econômica que possa reduzir o consumismo e a produção de bens baseada em energia não renovável, bem como o obsoletismo programado de produtos que têm suas vidas úteis artificialmente ou tecnicamente reduzidas, a fim de aumentar o consumo e, com isto, a acumulação de riquezas dos investidores e proprietários de empresas, não resultará ou não será nunca efetivada dentro da conjuntura econômica mundial, pelo menos nos próximos 30 ou 40 anos porque o discurso que os cientistas e filósofos do decrescimento realizam não propõem qualquer mudança comportamental.

Para se promover qualquer mudança no sistema econômico mundial tem que se começar com a mudança de comportamento de indivíduos, uma vez que o sistema implantado pelo capitalismo alterou de forma violenta os modelos mentais das pessoas e com isto gerou hábitos nocivos, mas úteis para o crescimento de seus negócios e, deste modo, proporcionando de forma progressiva o aumento individual e familiar de riqueza em detrimento do aumento da pobreza e dos danos físicos e biológicos à natureza, ao ambiente natural.

A história de Townsend procura retratar exatamente um dos caminhos que são seguidos para o condicionamento visando de alguma forma acumular bens em prol de interesses individuais e sem levar em conta a biodiversidade. Alguns dos que discutem o decrescimento até que procuram mostrar fatos, porém não avançam em termos de uma bioeconomia que possa trazer benefícios capazes de, pouco a pouco, ir desconstruindo os modelos mentais que criaram os hábitos e paradigmas que se tornaram os vícios econômicos consumistas que contaminam todas as sociedades em todos os países.

Não apenas devemos discutir o decrescimento econômico, mas de modo efetivo o decrescimento do comportamento que promove o consumismo, o decrescimento populacional até que se consiga formar uma geração sadia, com hábitos sadios, voltada para a simplicidade da vida e para uma vida sem sofisticação e sem artificialidade, no que chamo de biodecrescimento. Com isto não estou incentivando o controle rigoroso da natalidade, mas uma breve interrupção do crescimento populacional, a fim de se poder gerar uma nova população sem os condicionamentos de uma condição Ter de vida e bem direcionada para uma condição Ser de vida. Aí, sim, poderemos voltar a ter um novo e sadio crescimento populacional sem prejuízo para o ser humano e para a natureza. No mais, se percebe nos discursos e debates que se realizam, em especial nos Foros Sociais e contraposição aos Foros Econômicos, são argumentos e falácias os quais não agregam valor à vida e ao ambiente planetário, porque estão presos a um círculo vicioso e tenta repetir o que se fez em termos políticos e econômicos cujos resultados não têm sido bons até agora.

Por isso tenho dúvidas sobre o real valor de uma filosofia de decrescimento que não vai criar nada de novo para a humanidade e que vai repetir os mesmos erros e enganos que geraram o crescimento amebiano em várias regiões do planeta. Portanto, como discurso tudo o que se fez até agora é muito bonito, cheio de palavras de ordem e apelos semelhantes àqueles que os ludditas realizaram durante a Primeira Revolução Industrial. Precisamos interromper o uso abusivo de energia não renovável que vem gerando há séculos o crescimento inorgânico com a total destruição da natureza. Isto é fato e é importante. Porém, precisamos de criar os meios efetivos para que se comece a colocar em prática o crescimento orgânico, no qual tudo o que se produz se fará com a ajuda da Natureza e não em seu detrimento. Ou seja, torna-se necessário que voltemos a aprender com a Natureza como usar os recursos naturais sem destruí-los, mas preservando-os a fim de podermos utilizá-los e reutilizá-los, sempre que for preciso.

Assim, devemos criar uma bioeconomia que vai desenhar diretrizes para uso correto de recursos naturais, aliada a um biodecrescimento em busca de uma geração mais sadia em todos os sentidos: logosférico, biosférico, hilosférico e noosférico, com o que poderemos num futuro (em um novo futuro que pode ser para além das próximas duas ou três gerações) ter no Planeta uma nova raça, um novo ser humano que irá se reproduzir na certeza de que não mais estará promovendo o aumento de uma população doente nestes quatro sentidos do Ser Integral. Desta forma, não devemos fazer o que mostrou a estória relatada por Townsend, como fizemos até agora.


Essa proposta que busca enfocar uma Economia Orgânica não representa retroceder no tempo ao nível de uma primitividade já vivida, mas avançar no tempo procurando promover uma mudança no paradigma consumista e capitalista acumulador de riquezas que não leva em consideração uma vida saudável. Viver de modo saudável para mim não implica em voltar ao passado, ao ambiente do homem primitivo, mas criar um novo ambiente do bem, no qual possamos viver melhor e mais tanto em sentido biológico quanto ecológico e natural. É possível, sim, produzir mais com menos consumo de energia não renovável, com bioenergia e eco-energia de modo a podermos recuperar os danos que foram causados no Planeta nesses mais de 400 anos de exploração desenfreada dos recursos naturais.

Pão, Paz e Liberdade

segunda-feira, 1 de junho de 2015

ENTRE O PASSADO E O PRESENTE O QUE REALMENTE MUDOU NO BRASIL

As leituras e as visualizações dos acontecimentos socioeconômicos e sociopolíticos que transcorrem atualmente no Brasil parecem-me uma repetição com um pouco mais de ácido sulfúrico derramado sobre os fatos do que já aconteceu há cerca de 30 anos. Não que eu concorde com o chavão de que a história se repete, mas alguns fatos históricos estudados e analisados ontem nem precisam ser revistos para emplacar em qualidade alguns dos fatos que ocorrem hoje em política e em economia, num sinal claro de que a máxima de que "é errando que se aprende" ainda está longe de permear a cultura dos brasileiros ou, pelo menos, a cultura dos chamados "políticos brasileiros".

Para exemplificar o dito tomo a ousadia de transcrever neste post um artigo escrito em 1988 pelo meu amigo Dr. Geraldo Caravantes publicado no Jornal do Comércio de Porto Alegre, e espero que ele não de admoeste por ter ido cavar nos baús do Conselho Regional de Administração este artigo. Exemplifico, também, para mostrar aos estudantes de Administração como é significativo para nossa profissão que hoje completa 50 anos, o Pensar antes do Fazer como tenho pregado aos ventos nas salas de aula. Vamos ao artigo:

"EU ERA FELIZ E NÃO SABIA"
Geraldo Ronchetti Caravantes (1988)

"Se há um povo com capacidade de tolerância vários pontos acima da média, não precisamos hesitar nem um segundo em responder: somos nós brasileiros. A inflação situa-se em torno de 1% ao dia, ultrapassando 4 dígitos (acima dos 1000%), quando pensamos no índice anual. Para se ter uma referência para comparação basta lembrar que no Japão ela situa-se em torno de 2% (dois por cento) ao ano e nos Estados Unidos 6% (seis por cento).

A gasolina, que, retirado o imposto compulsório de 30% deveria baixar em igual proporção, não só não baixou mas recebeu ainda um acréscimo de 15%. Os gêneros de primeira necessidade, o vestuário e tudo mais tem seus preços majorados de acordo com parâmetros incompreensíveis ao simples mortal e vão à estratosfera.

E apesar de tudo isso, ainda conservamos um sorriso nos lábios. É ou não é algo surpreendente?

Mas surpreendente mesmo é termos um Governo que não governa, dirigentes que não dirigem, homens públicos que se preocupam mais com o próprio bolso do que com o honorável público. Para dizer a verdade, há um momento em que eles se preocupam: no período pré-eleitoral quando estão à caça de votos.

Você lembra da época em que Delfim dirigia as finanças públicas do País e achávamos ruim quando a inflação anual beirava 30%? Tem muito brasileiro ficando com saudade daqueles bons tempos...

Quando vejo tantas situações sociais totalmente fora de controle e que são fundamentalmente de responsabilidade de nossos governantes, pergunto-me se o que presenciamos é realmente incompetência nata, endógena, ou trata-se do que poderíamos chamar de incompetência programada e deliberada?

 Creio que o único caminho que nos resta - se conseguirmos resistir até lá - é democraticamente banirmos da vida pública os atuais gestores incapazes de gerir. Deveríamos, de imediato, começar tal exercício votando em candidatos que não representem a situação, escolhendo pessoas com experiência e competência. Já seria um começo".

Embora os números utilizados neste artigo sejam de 1988, eles passam a representar uma metáfora bastante clara e lúcida, senão uma provocação de cenário para o que esperaríamos no futuro daquele momento que são os dias de hoje. Leia-se nas entrelinhas que naquela época como hoje, um dos temas mais ventilados nos jornais e inclusive em ouros artigos do Dr. Geraldo Caravantes escritos para o Jornal do Comércio, era a corrupção que corria solta nos ambientes governamentais tal qual vemos hoje em escândalos que são bem mais amplos que os dos tempos passados. 

O que me deixa intrigado hoje é que quase em nenhum momentos procuramos promover qualquer forma de mudança que fosse capaz de impactar a estrutura socioeconômica nacional e abrir espaço para um desenvolvimento firme. Há trinta anos a Coreia do Sul já estava ultrapassando o Brasil e até agora permanecemos no mesmo lugar como se nada fosse necessário mudar. Quem sabe daqui a 30 anos alguém, em algum lugar deste imenso país, irá dizer que realmente houve alguma significativa mudança e começamos a engatinhar para um verdadeiro desenvolvimento. Ainda estou acreditando que isto vai acontecer e não mais iremos dizer que "eramos felizes e não sabíamos".

Pão, Paz e Liberdade