L.I.D.E.R. Ideias e Princípios

L.I.D.E.R. Ideias e Princípios
Imagem da Capa do Livro

sábado, 19 de setembro de 2015

AS CAPACIDADES ESSENCIAIS COMO SUPORTE PARA AS HABILIDADES ESSENCIAIS


“Aprender é remar contra a corrente; é só parar, e anda-se para trás” (Adágio Chinês)

Tenho falado e discutido sobre a importância e o significado das Habilidades Essenciais (HA) para o desenvolvimento de Sistemas Humanos Integrais (SHI) e mostrado como é importante dominar e sempre atualizar essas habilidades para que tenhamos capacidade de tomar decisões. Enquanto discutia a importância e o valor das seis habilidades principais para um Administrador de sucesso, percebi que elas se tornavam eficientes e práticas devido ao suporte ou apoio das Capacidades Essenciais (CA) que estão nas suas bases e no entorno, as quais consolidam as Competências Essenciais (CE). Repito apenas para lembrar quais são as seis habilidades essenciais: a) Humanas e Sociais; b) Conceituais e Interpretativas; c) Técnicas e Experienciais [que formam as Habilidades Pragmáticas, Molares]; d) Heurísticas e Intuitivas; e) Praxiológicas e Decisionais; f) Emocionais e Espirituais [que formas as Habilidades Inovadoras, Moleculares]. Tem-se, assim, que as habilidades devem resultar em capacidades, sem o que as estratégias criadas durante os planejamentos podem não alcançar essas competências. Tem-se, então, que o foco central para onde convergem as Habilidades e as Aptidões é a Capacidade que o Administrador irá dominar para aplicar no Processo Decisório. E o que significam as Capacidades Essenciais?

Primeiro vamos entender um pouco o que significa Capacidade e como a vemos dentro de um ambiente organizacional, com Administração Integral, em apoio à tomada de decisões. Existem vários significados no dicionário para esta palavra e alguns deles estão diretamente relacionados com a forma como conceituo Habilidade e Aptidão. Contudo, quando a capacidade expressa habilidade e/ou aptidão a palavra, em sentido isolado, não consegue dar maior força ou sentido ao que trato como essencial e não-essencial, o que requer uma ampliação aplicativa para o seu significado. Assim, para conseguirmos perceber melhor como a capacidade contribui para aumentar as ações das Habilidades Essenciais, vamos ajusta-la às preposições que lhe seguem como forma de expandi-la. Como assim?

Vamos, então, à nossa segunda proposição que trata da palavra capacidade preposicionada, ou seja, acrescida de uma preposição, para dar o sentido que necessitamos quando formos nos referir a habilidades e aptidões. Deste modo poderemos dizer que existem pelo menos dois caminhos significativos preposicionados que nos orientam para compreender o papel da capacidade no desenvolvimento dos atributos que ajudam no processo de tomada de decisão. Escolhi duas preposições que considero fortes quando associadas a um substantivo: “de” e “para”. Em seguida identifiquei na minha apreciação estes dois caminhos: a) Capacidade de... ; e b) Capacidade para..., os quais passo a discutir.

Apreciem como o uso das preposições “de” e “para” dão sentidos (fortes) distintos à aplicação prática das capacidades; isto possibilita identificar quando uma capacidade é essencial, e complementa o domínio cognitivo na direção da prática no ambiente organizacional, em especial quando os colaboradores e líderes/diretivos são preparados com o Sistema L.I.D.E.R. (Ler, Interpretar, Desenvolver, Estudar, Realimentar) e dominam o Ciclo APOR (Atenção, Percepção, Observação, Reflexão). Estas duas ferramentas (L.I.D.E.R. e APOR) contribuem para o aperfeiçoamento das Habilidades Essenciais e, por reflexão, das Capacidades Essenciais dos Sistemas Humanos Integrais que atuam dentro de uma empresa ou instituição; estas são também importantes para a vida pessoal, sobretudo quando a pessoa possui um foco de atualização segundo os princípios de Individualismo Cooperativo.

O caminho promovido pela condição Capacidade De contribui para o Sentir e o Pensar antes de o Praticar e o Fazer, tanto para as Habilidades como para as Aptidões, embora seja mais requerido para as primeiras, visto que sem o Pensar as Habilidades Essenciais podem não ser produtivas e nem contribuir para a eficácia das Aptidões nas organizações. Já a Capacidade Para contribui para o Fazer depois de o Pensar e tende a tornar as Aptidões mais consistentes, práticas e eficientes. Quando adicionamos um verbo a estas expressões a importância para as Habilidades Essenciais se destacam e isto nos conduz a um conjunto de Capacidades Essenciais para realizar as Ações e Atividades de Administração de uma unidade produtiva, de uma organização, de uma sociedade, de um país.
Quando dizemos Ser Capaz De ou Ser Capaz Para estamos falando de duas ações distintas mas congruentes. Quando uma pessoa é capaz de, ela está estimulando os domínios de suas habilidades, a fim de proporcionar energia suficiente quando se está diante de um problema, ou se está identificando o fenômeno que gerou o problema dentro de uma empresa ou mesmo na vida real. Neste momento o Administrador dedica todo o seu APOR para construir as ideias e elaborar as estratégias que resultem em soluções; essas estratégias deverão ser direcionadas para a próxima condição operacional ou de gestão, geralmente a cargo de gerentes, supervisores, coordenadores cooperativos, colaboradores, os quais devem estar preparados em suas condições relativas de ser capaz para por em atividade as ações propostas no nível anterior (ser capaz de).

Assim, podemos salientar que a condição Capacidade De, envolve os valores que pertencem a um indivíduo, algo que lhe é próprio, subjetivo e intrínseco a seu ego, sua inteligência, sua esfera cognitiva; em algumas ocasiões tratamos esta condição como conhecimento tácito, intuição, emoção, razão, espírito, cooperatividade, criatividade, inventividade e competitividade e resumimos na Arte de Pensar. Esta Arte o indivíduo aprende ao longo de sua vida. Vale lembrar aqui as palavras de Sócrates no momento em o efeito da cicuta já chegava ao nível do seu tórax: “...Eu sei que nada sei” mostrando que até no momento da morte podemos estar aprendendo a pensar ou ainda não conseguimos nos completar. Ninguém nasce sabendo pensar e quando deixamos ou retardamos o processo de aprendizagem do Pensar nos tornamos um ser que não consegue caminhar no sentido de sua completude. Todo conhecimento que acumulamos no hemisfério esquerdo do cérebro foi construído depois do nascimento e ao longo do crescimento. Essa acumulação quando se associa à maturidade torna a pessoa mais preparada para a vida em harmonia com os demais seres da natureza. Quando ocorrem falhas de maturidade esse hiato entre o que pensamos e o que fazemos pode se tornar uma arma perigosa para a pessoa e para os demais seres da natureza. Chamo essas falhas de “Desvios Ontogenético”.

A falta de aprendizagem da Arte de Pensar representa o desvio das Capacidades Essenciais do Bem, e orientadas a um processo decisório eficiente; esse desvio conduz ao sentido de Capacidades Não-Essenciais que ocupam e consomem muito tempo tornando-o improdutivo e que, na maioria dos casos, resultam em conflitos, violências, vícios e uso de mecanismos instintivos semelhantes aos animais. Ou seja, quando fazemos usos de Capacidades Não-Essenciais (ou Capacidade do Mau)  priorizamos as experiências instintivas que estão acumuladas em nosso cérebro reptilíneo desde nossa origem e evolução (filogênese) do nível animal para o do hominídeo. Ao darmos ênfase às Capacidades Não-Essenciais estamos alimentando hábitos nocivos a nossa própria existência no ambiente natural e ao próprio ambiente, com o que comprometemos nossa evolução e continuamos inconclusos.

O que buscamos com o Desenvolvimento de Sistemas Humanos (DSH) nos Projetos SHENG.COM é priorizar as Capacidades Essenciais, por isso enfatizamos que uma das condições para tal desenvolvimento (ontogênese) é a aprendizagem das cinco artes ou domínios que compõem o Sistema L.I.D.E.R., o qual atua como um sistema motriz, para começarmos a aumentar, gradativamente, essas capacidades.

Outro ponto que evidenciamos em nosso estudo refere-se à distinção que fazemos entre Ação e Atividade. Observamos que as Capacidades Essenciais estão mais relacionadas com a Ação que com as Atividades, enquanto as Não-Essenciais tendem a se utilizar mais das Atividades que das Ações. Um roubo, um crime, uma atitude corrupta, um vício, são indicativos de baixo conteúdo de Capacidade Essencial no cérebro de um indivíduo. Uma pergunta que costumo fazer, quando estou no processo de conversação estratégica com os colaboradores e executivos de uma empresa, é: “Você é fumante?” Se o colaborador responder que sim, então faço uma segunda pergunta que considero fundamental: “Você considera a atividade de  fumar cigarros (ou outro produto) essencial para a sua qualidade de vida?” A resposta geralmente é um tanto atrapalhada porque a pessoa considera geralmente o vício de fumar algo bom, agradável, prazeroso e divertido, e estas supostas atividades de caráter lúdico negativo e improdutivo eles acham interessantes quando, pela evidência demonstrada cientificamente, a atividade de fumar é prejudicial à saúde do Homem. Este é apenas um exemplo e podemos perceber muitos outros em que as pessoas nem percebem que estão agindo através de uma capacidade não-essencial que pode lhe ser prejudicial e ao seu trabalho e, em muitos casos, colocar em risco a saúde e a vida. O mesmo podemos dizer sobre decisões tomadas sem o devido APOR que podem levar um processo produtivo a perdas materiais graves e, até, humanas. Alguns desastres que foram registrados pela história recente mostram como tomar decisões, sem levar em consideração as Capacidades Essenciais, resultaram em prejuízos materiais a empresas e ceifaram vidas de colaboradores, população e biodiversidade.

Casos como a explosão da fábrica de gás isocianato de potássio, da Union Carbide, em Bopal, na Índia, do mega petroleiro Valdez da Exxon que explodiu no mar do Alaska, de Chernobil, Apolo 11, até a queda de aviões e de prédios construídos com materiais sem qualidade para reduzir custos, são clássicos. Contudo, os microacidentes que resultam do déficit de APOR de chefes, coordenadores, supervisores e funcionários, quando somados, podem resultar em grande prejuízo para empresas, instituições e para o país. O Sistema L.I.D.E.R. pode contribuir para a Administração de Riscos que é hoje uma área importante para os profissionais de Administração dentro das empresas de qualquer tamanho, mesmo aquelas empresas intensivas em conhecimento e tecnologia.

Vejamos agora em que resulta para os sistemas humanos e para a empresa a Capacidade Para. Enquanto o líder estrategista se ocupa em formular ou traçar diretrizes estratégicas para ação utilizando-se de sua Capacidade De, o gerente (gestor) com base em sua Capacidade Para conduz as atividades dos sistemas produtivos e procura aplicar as táticas necessárias para que as estratégias sejam bem sucedidas. Ele, o gerente, Líder de Atividade, precisa estar preparado com as Habilidades Essenciais necessárias para realizar ou colocar em prática as Capacidades Essenciais que são requeridas em determinada obra, produção, negociação, etc. através das estratégias definidas pela Capacidade De proporcionadas pelos líderes de ação da empresa.

Um ponto comum a ambos, diretor/executivo (líder de ação) e gerente/gestor, (líder de atividade), envolve a necessidade de aceitar como importante para o desenvolvimento dos negócios a existência de conflitos e problemas e, até, de alguns erros. Uma experiência vivida em uma companhia japonesa chamou-me a atenção certa feita. Ao final de um turno de trabalho de zero hora, quando às sete horas estávamos concluindo os relatórios das atividades de produção do turno e, no espaço do diário de produção, destinado a registrar ocorrências, problemas, defeitos em máquinas e em produtos, não havia sido registrado nada. Quando entreguei ao supervisor japonês nosso relatório ele sentou-se no escritório e começou a chorar. Quando perguntei se ele estava chorando com saudades da família ele disse: “Não”, ao que perguntei novamente: “Qual ou quais os motivos de você estar chorando?”, e a resposta foi inusitada para mim que estava sempre buscando o optimum nos processos produtivos da fábrica; ao que ele respondeu: “No Japão, quando encerramos uma jornada ou turno sem problemas ou ocorrências é um sinal de que nos turnos seguintes vão aparecer muitos problemas e isto não é bom”. Ao que ele completou: “Encerramos o turno e vocês podem ir para casa, mas eu fico na fábrica para cooperar com o próximo supervisor”. Esta constatação mostra como a cultura oriental avalia as coisas essenciais e as não-essenciais e se dedicam a otimizar, cada vez mais, as coisas essenciais, e descartar ou minimizar e até buscar superações para eliminar ou fazer com que se possa reduzir a zero, as não-essenciais.

Aqui entra mais um ponto interessante para este tema das Capacidades Essenciais, que se refere à questão que vem sendo discutida por muitas pessoas, sobre a polarização dicotômica como um fator improdutivo dentro de um sistema complexo. Discutirei isto no próximo post com o tema A POLARIZAÇÃO DE IDEIAS, ARGUMENTOS E AÇÕES COMO VANTAGEM COMPETITIVA. As ideias aqui expressas se baseiam no livro que devo lançar em breve: L.I.D.E.R. Ideias e Método que trata deste e de outros temas. Quando o livro entrar no prelo, informo o valor e como fazer a pré-compra do exemplar e espero contar com os estudantes, colegas e profissionais para leitura e discussão de nossas ideias. Deverei disponibilizar sem custo um capítulo do livro neste Blog.

Administração Sem Gestão. Pão, Paz e Liberdade.

sábado, 29 de agosto de 2015

BIOECONOMIA, BIODIVERSIDADE E BIODECRESCIMENTO

A narrativa a seguir, extraída do livro de Joseph Townsend (apud HARDIN, 1989), relata em sentido metafórico, o processo de crescimento em uma sociedade ou organização humana, o qual denomino de crescimento amebiano ou não diferenciado ou inorgânico.

O Texto é semelhante a uma lenda ou história do tipo "era uma vez", mas se trata de uma teoria, que poderíamos chamar de neo-malthusiana, formulada em 1786 e que procurava mostrar os efeitos da superpopulação sobre o desenvolvimento de sistemas vivos, antes mesmo de Adam Smith publicar o seu conhecido "A Riqueza das Nações. Vejamos, então, o texto de Townsend:


Nos Mares do Sul há uma ilha chamada Juan Fernández em homenagem ao seu descobridor. Neste lugar remoto, Juan Fernández fundou uma colônia de cabras com um macho e uma fêmea. Este par feliz encontrou em abundância pastos pelo que, sem a menor dificuldade, obedeceu ao primeiro mandamento: crescer e multiplicar-se, até que, com o tempo, sua ilha se encheu de cabras. Antes que isto sucedesse desconheciam a miséria e a necessidade e até pareciam orgulhosas de seu número, porém a partir de então começaram a padecer de fome. Contudo, por algum tempo seguiram-se multiplicando em tal grau que se tivessem o dom do raciocínio haveriam compreendido que se aproximava uma fome. Diante disso, desapareceram primeiro os mais fracos e a abundância ressurgiu. Entraram, assim, em ciclos de felicidade e miséria, com abundância quando a população diminuía e escassez se esta aumentasse; nunca conseguiram a estabilidade, porém quase sempre a quantidade de alimentos era equilibrada. O equilíbrio foi quebrado de vez em quando, seja por epidemias ou pela chegada de um navio em desgraça. Em tais ocasiões, a população se reduzia consideravelmente, porém para compensar a situação alarmante e consolar-se pela perda de seus companheiros os sobreviventes sempre recuperavam de imediato a abundância. Já não temiam a fome, já não se olhavam com desconfianças, todos viviam na abundância, todos estavam contentes e felizes. Assim, o que se poderia fazer considerando uma desgraça se convertia em uma fonte de comodidade e, ao menos para eles, o mal parcial constituía o bem universal.

Para prejudicar os corsários ingleses que invadiam a ilha em busca de provisões, os espanhóis eliminaram as cabras deixando na praia um casal de galgos [uma raça de cães]. Os cães cresceram e se multiplicaram de acordo com a quantidade de alimentos disponíveis; os resultados foram os previstos pelos espanhóis: escassearam os alimentos das cabras. Se estas desaparecessem totalmente os cães também desapareceriam. Isto não ocorreu assim porque muitas cabras se retiraram a níveis inacessíveis para os cães e desciam aos vales só o tempo necessário para alimentar-se com temor e circunspecção; fora as descuidadas e as temerárias poucas se convertiam em presas e só os cães mais alertas, fortes e ativos conseguiam comida suficiente. Estabeleceu-se, assim, uma nova classe de equilíbrio. Os mais fracos de ambas as espécies foram os primeiros em pagar sua dívida com a natureza; os mais ativos e vigorosos preservaram sua vida. É a quantidade de alimentos o que regula a quantidade de população da espécie humana. Nos bosques e no estado selvagem o número de habitantes pode ser pequeno, porém quase ninguém padece de escassez. Enquanto abundem os alimentos, os homens continuarão crescendo e multiplicando-se; cada homem poderá sustentar sua família, ou ajudar aos seus amigos, em proporção direta a sua atividade e sua força. Os fracos dependem da abundância precária dos fortes e os preguiçosos, cedo ou tarde, padecem a consequência natural de sua indolência. Se se introduzisse uma comunidade de bens e ao mesmo tempo se desse a cada homem a liberdade de casar-se, em princípio aumentaria a população, porém não a soma total de sua felicidade, e gradualmente, quando todos estivessem reduzidos à escassez e à miséria, os mais fracos começariam a perecer.

A forma linear como estamos discutindo uma maneira de mudança econômica que possa reduzir o consumismo e a produção de bens baseada em energia não renovável, bem como o obsoletismo programado de produtos que têm suas vidas úteis artificialmente ou tecnicamente reduzidas, a fim de aumentar o consumo e, com isto, a acumulação de riquezas dos investidores e proprietários de empresas, não resultará ou não será nunca efetivada dentro da conjuntura econômica mundial, pelo menos nos próximos 30 ou 40 anos porque o discurso que os cientistas e filósofos do decrescimento realizam não propõem qualquer mudança comportamental.

Para se promover qualquer mudança no sistema econômico mundial tem que se começar com a mudança de comportamento de indivíduos, uma vez que o sistema implantado pelo capitalismo alterou de forma violenta os modelos mentais das pessoas e com isto gerou hábitos nocivos, mas úteis para o crescimento de seus negócios e, deste modo, proporcionando de forma progressiva o aumento individual e familiar de riqueza em detrimento do aumento da pobreza e dos danos físicos e biológicos à natureza, ao ambiente natural.

A história de Townsend procura retratar exatamente um dos caminhos que são seguidos para o condicionamento visando de alguma forma acumular bens em prol de interesses individuais e sem levar em conta a biodiversidade. Alguns dos que discutem o decrescimento até que procuram mostrar fatos, porém não avançam em termos de uma bioeconomia que possa trazer benefícios capazes de, pouco a pouco, ir desconstruindo os modelos mentais que criaram os hábitos e paradigmas que se tornaram os vícios econômicos consumistas que contaminam todas as sociedades em todos os países.

Não apenas devemos discutir o decrescimento econômico, mas de modo efetivo o decrescimento do comportamento que promove o consumismo, o decrescimento populacional até que se consiga formar uma geração sadia, com hábitos sadios, voltada para a simplicidade da vida e para uma vida sem sofisticação e sem artificialidade, no que chamo de biodecrescimento. Com isto não estou incentivando o controle rigoroso da natalidade, mas uma breve interrupção do crescimento populacional, a fim de se poder gerar uma nova população sem os condicionamentos de uma condição Ter de vida e bem direcionada para uma condição Ser de vida. Aí, sim, poderemos voltar a ter um novo e sadio crescimento populacional sem prejuízo para o ser humano e para a natureza. No mais, se percebe nos discursos e debates que se realizam, em especial nos Foros Sociais e contraposição aos Foros Econômicos, são argumentos e falácias os quais não agregam valor à vida e ao ambiente planetário, porque estão presos a um círculo vicioso e tenta repetir o que se fez em termos políticos e econômicos cujos resultados não têm sido bons até agora.

Por isso tenho dúvidas sobre o real valor de uma filosofia de decrescimento que não vai criar nada de novo para a humanidade e que vai repetir os mesmos erros e enganos que geraram o crescimento amebiano em várias regiões do planeta. Portanto, como discurso tudo o que se fez até agora é muito bonito, cheio de palavras de ordem e apelos semelhantes àqueles que os ludditas realizaram durante a Primeira Revolução Industrial. Precisamos interromper o uso abusivo de energia não renovável que vem gerando há séculos o crescimento inorgânico com a total destruição da natureza. Isto é fato e é importante. Porém, precisamos de criar os meios efetivos para que se comece a colocar em prática o crescimento orgânico, no qual tudo o que se produz se fará com a ajuda da Natureza e não em seu detrimento. Ou seja, torna-se necessário que voltemos a aprender com a Natureza como usar os recursos naturais sem destruí-los, mas preservando-os a fim de podermos utilizá-los e reutilizá-los, sempre que for preciso.

Assim, devemos criar uma bioeconomia que vai desenhar diretrizes para uso correto de recursos naturais, aliada a um biodecrescimento em busca de uma geração mais sadia em todos os sentidos: logosférico, biosférico, hilosférico e noosférico, com o que poderemos num futuro (em um novo futuro que pode ser para além das próximas duas ou três gerações) ter no Planeta uma nova raça, um novo ser humano que irá se reproduzir na certeza de que não mais estará promovendo o aumento de uma população doente nestes quatro sentidos do Ser Integral. Desta forma, não devemos fazer o que mostrou a estória relatada por Townsend, como fizemos até agora.


Essa proposta que busca enfocar uma Economia Orgânica não representa retroceder no tempo ao nível de uma primitividade já vivida, mas avançar no tempo procurando promover uma mudança no paradigma consumista e capitalista acumulador de riquezas que não leva em consideração uma vida saudável. Viver de modo saudável para mim não implica em voltar ao passado, ao ambiente do homem primitivo, mas criar um novo ambiente do bem, no qual possamos viver melhor e mais tanto em sentido biológico quanto ecológico e natural. É possível, sim, produzir mais com menos consumo de energia não renovável, com bioenergia e eco-energia de modo a podermos recuperar os danos que foram causados no Planeta nesses mais de 400 anos de exploração desenfreada dos recursos naturais.

Pão, Paz e Liberdade

segunda-feira, 1 de junho de 2015

ENTRE O PASSADO E O PRESENTE O QUE REALMENTE MUDOU NO BRASIL

As leituras e as visualizações dos acontecimentos socioeconômicos e sociopolíticos que transcorrem atualmente no Brasil parecem-me uma repetição com um pouco mais de ácido sulfúrico derramado sobre os fatos do que já aconteceu há cerca de 30 anos. Não que eu concorde com o chavão de que a história se repete, mas alguns fatos históricos estudados e analisados ontem nem precisam ser revistos para emplacar em qualidade alguns dos fatos que ocorrem hoje em política e em economia, num sinal claro de que a máxima de que "é errando que se aprende" ainda está longe de permear a cultura dos brasileiros ou, pelo menos, a cultura dos chamados "políticos brasileiros".

Para exemplificar o dito tomo a ousadia de transcrever neste post um artigo escrito em 1988 pelo meu amigo Dr. Geraldo Caravantes publicado no Jornal do Comércio de Porto Alegre, e espero que ele não de admoeste por ter ido cavar nos baús do Conselho Regional de Administração este artigo. Exemplifico, também, para mostrar aos estudantes de Administração como é significativo para nossa profissão que hoje completa 50 anos, o Pensar antes do Fazer como tenho pregado aos ventos nas salas de aula. Vamos ao artigo:

"EU ERA FELIZ E NÃO SABIA"
Geraldo Ronchetti Caravantes (1988)

"Se há um povo com capacidade de tolerância vários pontos acima da média, não precisamos hesitar nem um segundo em responder: somos nós brasileiros. A inflação situa-se em torno de 1% ao dia, ultrapassando 4 dígitos (acima dos 1000%), quando pensamos no índice anual. Para se ter uma referência para comparação basta lembrar que no Japão ela situa-se em torno de 2% (dois por cento) ao ano e nos Estados Unidos 6% (seis por cento).

A gasolina, que, retirado o imposto compulsório de 30% deveria baixar em igual proporção, não só não baixou mas recebeu ainda um acréscimo de 15%. Os gêneros de primeira necessidade, o vestuário e tudo mais tem seus preços majorados de acordo com parâmetros incompreensíveis ao simples mortal e vão à estratosfera.

E apesar de tudo isso, ainda conservamos um sorriso nos lábios. É ou não é algo surpreendente?

Mas surpreendente mesmo é termos um Governo que não governa, dirigentes que não dirigem, homens públicos que se preocupam mais com o próprio bolso do que com o honorável público. Para dizer a verdade, há um momento em que eles se preocupam: no período pré-eleitoral quando estão à caça de votos.

Você lembra da época em que Delfim dirigia as finanças públicas do País e achávamos ruim quando a inflação anual beirava 30%? Tem muito brasileiro ficando com saudade daqueles bons tempos...

Quando vejo tantas situações sociais totalmente fora de controle e que são fundamentalmente de responsabilidade de nossos governantes, pergunto-me se o que presenciamos é realmente incompetência nata, endógena, ou trata-se do que poderíamos chamar de incompetência programada e deliberada?

 Creio que o único caminho que nos resta - se conseguirmos resistir até lá - é democraticamente banirmos da vida pública os atuais gestores incapazes de gerir. Deveríamos, de imediato, começar tal exercício votando em candidatos que não representem a situação, escolhendo pessoas com experiência e competência. Já seria um começo".

Embora os números utilizados neste artigo sejam de 1988, eles passam a representar uma metáfora bastante clara e lúcida, senão uma provocação de cenário para o que esperaríamos no futuro daquele momento que são os dias de hoje. Leia-se nas entrelinhas que naquela época como hoje, um dos temas mais ventilados nos jornais e inclusive em ouros artigos do Dr. Geraldo Caravantes escritos para o Jornal do Comércio, era a corrupção que corria solta nos ambientes governamentais tal qual vemos hoje em escândalos que são bem mais amplos que os dos tempos passados. 

O que me deixa intrigado hoje é que quase em nenhum momentos procuramos promover qualquer forma de mudança que fosse capaz de impactar a estrutura socioeconômica nacional e abrir espaço para um desenvolvimento firme. Há trinta anos a Coreia do Sul já estava ultrapassando o Brasil e até agora permanecemos no mesmo lugar como se nada fosse necessário mudar. Quem sabe daqui a 30 anos alguém, em algum lugar deste imenso país, irá dizer que realmente houve alguma significativa mudança e começamos a engatinhar para um verdadeiro desenvolvimento. Ainda estou acreditando que isto vai acontecer e não mais iremos dizer que "eramos felizes e não sabíamos".

Pão, Paz e Liberdade

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

DA ARTE DE MENTIR COMO UM RECURSO PARA A DOMINAÇÃO

Estamos encerrando mais um ano deste segundo decênio do Século 21, um ano que foi cravado na memória dos brasileiros com o que se poderia chamar de "Ano da Mentira" em virtude dos discursos e promessas políticas que os candidatos apresentaram em suas campanhas. Mentiras que também se manifestaram nas declarações de indivíduos que estiveram e ainda estão por detrás dos casos de corrupção nas empresas estatais e nos órgãos públicos. Diante dos eventos que apreciei este ano de 2014, pensei em fazer a leitura ou re-leitura de alguns livros que estão em minha estante e ao pesquisar um texto para este último mês do ano que, pelo menos, atendesse a minha angústia diante de tanto descalabro político e econômico, achei que reler Hannah Arendt, neste momento, me tranquilizaria quanto ao entendimento de questões políticas. Escolhi para reler o livro CRISES DA REPÚBLICA no qual a autora faz uma crítica bem fundamentada sobre Os Documentos do Pentágono. Aproveito agora para copiar alguns parágrafos deste livro de Arendt aos quais estou dando este título: DA ARTE DE MENTIR COMO UM RECURSO PARA A DOMINAÇÃO. Vamos então ao texto de Arendt (1973, p15-17):
(...)
"A veracidade nunca esteve entre as virtudes políticas, e mentiras foram encaradas como instrumentos justificáveis nestes assuntos. Quem quer que reflita sobre estas questões ficará surpreso sobre a pouca atenção que tem sido dada ao seu significado na nossa tradição de pensamento politico e filosófico, por um lado, pela natureza da ação, e por outro, pela natureza de nossa capacidade de negar em pensamento e palavra qualquer que seja o caso. Esta capacidade atuante e agressiva é bem diferente de nossa passiva suscetibilidade em sermos vítimas de erros, ilusões, distorções de memória, e tudo que possa ser culpado de nossos mecanismos sensuais e mentais.
Uma das características da ação humana é a de sempre iniciar algo novo, o que não significa que possa sempre partir ab ovo, criar ex nihilo. Para dar lugar à ação, algo que já estava assentado deve ser removido ou destruído, e deste modo as coisas são mudadas. Tal mudança seria impossível se não pudéssemos nos remover mentalmente de onde estamos fisicamente colocados e imaginar que as coisas poderiam ser diferentes do que realmente são. Em outras palavras, a negação deliberada da verdade dos fatos - isto é, a capacidade de mentir - e a faculdade de mudar os fatos - a capacidade de agir - estão interligadas; devem suas existências à mesma fonte:imaginação.Não é de nenhum modo natural podermos dizer 'o sol está brilhando', quando na verdade está chovendo (a consequência de certas lesões cerebrais é a perda desta capacidade); a rigor isto indica que, apesar de estarmos bem equipados para o mundo, tanto sensual como mentalmente, não estamos adaptados ou encaixados a ele como uma de suas partes inalienáveis. Somos livres para reformar o mundo e começar algo novo sobre ele. Sem a liberdade mental de negar ou afirmar a existência, de deixar de dizer 'sim' ou 'não' - não apenas a afirmações ou proposições para expressar concordância ou discordância, mas para as coisas como se apresentam, além da concordância e discordância, aos nossos órgãos de percepção e conhecimento - nenhuma ação seria possível, e ação é exatamente a substância de que é feita a política.
Entretanto, quando falamos de mentiras e especialmente de mentiras entre homens atuantes, é bom lembrar que ela não se insinuou na política por algum acidente da pecaminosidade humana. A afronta moral, por esta única razão, não consegue faze-la desaparecer. A falsidade deliberada trata com fatos contingentes; ou seja, com coisas que não trazem em si nenhuma verdade inerente, nenhuma necessidade de ser como são. Os historiadores sabem como é vulnerável a textura de fatos na qual passamos nossa vida cotidiana; está sempre em perigo de ser perfurada por mentiras comuns ou ser estraçalhada pela mentira organizada por grupos, classes ou nações, ser negada e distorcida, muitas vezes encoberta cuidadosamente por camadas de falsidade ou ser simplesmente deixada cair no esquecimento. Os fatos necessitam de testemunho para serem lembrados e de testemunhas de confiança para se estabelecerem, para que possam encontrar um abrigo seguro no domínio dos assuntos humanos.
(...)
Em circunstâncias normais o mentiroso é derrotado pela realdade, para a qual não há substituto; por maior que seja a rede de falsidade que um experimentado mentiroso tenha a oferecer, ela nunca será suficientemente grande para cobrir toda a imensidão dos fatos, mesmo com a ajuda de um computador. O mentiroso que consegue enganar com quantas falsidades comuns quiser, verá que é impossível enganar com mentira de princípios. Esta é uma das lições que podiam ter sido aprendidas das experiências totalitárias e da assustadora confiança de seus dirigentes no poder da mentira - na capacidade de, por exemplo, reescreverem a história uma e outra vez para adaptar o passado à 'linha política' do momento presente, ou de eliminarem dados que não se ajustam às suas ideologias. Desta forma, numa economia socialista, eles negariam a existência de desemprego, tornando-se o desempregado simplesmente uma não-pessoa.
Os resultados de tais experiências, quando empreendidas pelos que possuem os meios de violência, são terríveis, mas o embuste permanente não está entre eles. Sempre chega o ponto em que a mentira se torna contraproducente. Este ponto é alcançado quando a platéia à qual as mentiras são dirigidas é forçada a menosprezar por completo a linha demarcatória entre a verdade e a falsidade, para poder sobreviver. Verdade ou falsidade - já não importa mais o que seja, se sua vida depende de você agir como se acreditasse; a verdade digna de confiança desaparece por completo da vida pública, e com ela o principal fator de estabilização nos cambiantes assuntos dos homens".

Embora longo este estrato do capítulo deste livro de Arendt  merece ser apreciado e até criticado se for o caso, mas ele serve como um parâmetro para percebermos como em política a arte de mentir é uma verdade inconteste e serve de caminho para que os forjadores de mentiras consigam ludibriar de modo bem convincente as pessoas que ainda não se convenceram de alguma verdade dos fatos vivenciados no cotidiano. Em especial em uma sociedade que vive em função da oralidade mais do que envolvida com a leitura e a interpretação do mundo e das coisas. Vou continuar a re-leitura e selecionarei outros estratos para postar aqui. Espero que estejamos contribuindo para melhorar o esclarecimento e o discernimento das pessoas em relação às abordagens que são feitas diariamente nas mídias sobre os temas de nossa economia e nossa política.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

SOBRE CORRUPÇÃO E CORRUPTOS

A corrupção é um tema que está com frequência na ordem do dia de jornais, revistas, noticiários, na mídia em geral e não posso deixar de falar um pouco desta notável figura metafórica que muitos ouvem, todos ou quase todos parecem conhecer a figura e, talvez, poucos saibam efetivamente como lidar com ela ou mesmo interpreta-la devidamente quando se encontra diante dela.

Pelo meu glossário acadêmico a palavra Corrupção derivada do verbo Corromper parece-me dizer que se trata de provocar o rompimento, a fratura, a ruptura, a deformação ou o desalinhamento de um processo, um sistema ou um organismo e de um programa ou texto científico. Não vou consultar o Aurélio e deixo que outros o façam porque gostaria de deixar claro nesta narrativa o que penso sobre esta palavra e sobre a sua ocorrência real como em vários momentos experimentei, vivi e sofri danos talvez hoje irreparáveis causados por algumas dessas situações. Talvez por falta, na época, de uma melhor compreensão do que se tratava.

É claro que não pretendo escrever um Tratado sobre a Corrupção, nem relatar as amargas experiências vividas, mesmo porque não me sinto à vontade agora para uma obra dessa natureza. Mas não me custa realizar as leituras de alguns fatos e evidências e coloca-las no papel, talvez como uma forma de descarregar o meu consciente dolorido pelo que vi, vivi, passei e ainda vejo na raiz de uma nação como o Brasil.

Se considerar as palavras expressas acima como um conceito, seria interessante dimensionar o seu sentido para facilitar o entendimento. Assim, posso dizer hoje que existem quatro ou cinco tipos ou formas dimensionais de corrupção as quais nomeio a seguir.

A primeira forma denomino de NanoCorrupção: trata-se de um modelo de corrupção invisível e imperceptível a olho nu e que age de forma cruel como o vírus ebola ou outro qualquer. Ela corrompe, contamina, desgasta de forma lenta, mas contínua o organismo humano, social, ambiental. Elas podem, como as demais, ser desenhadas segundo regras sociológicas psicológicas, econômicas, antropológicas para atender aos diversos estilos de os agentes agirem no ato de corromper.

Existe um sem número de exemplos cuja listagem encheria várias páginas com e sem fotos e outros tipos de ilustração. Contudo registro uns poucos exemplos e começo com a chamada cola didática, ou seja, aquela que o aluno faz olhando por sobre o ombro do colega em uma prova para ver se consegue copiar a resposta em um quesito. Aqui também considero uma ação nanocorrupta o professor dispensar um aluno de entregar um trabalho escolar porque ele (o aluno) tem se comportado muito bem e demonstra bom nível de inteligência em sua disciplina. Na minha forma de pensar se tiver que dispensar um aluno de entregar um trabalho dispensarei a todos e refaço a metodologia da atividade acadêmica para contemplar esta atitude. Outro exemplo ocorre quando tentamos furar uma fila, muitas vezes fingindo que estamos doentes, e dizemos não ser possível esperar a nossa hora de ser atendido. Um tipo interessante é o da falta de troco em centavos muito comum nos caixas de supermercado, mercearias, farmácias, padarias, etc.

Um fato que presenciei muito a propósito deste tipo ocorreu numa fila de um renomado Hipermercado em Salvador. Estávamos em pleno plano Collor, quando todo mundo foi saqueado pelos donos do poder na época quando um cliente a minha frente foi atendido. Depois que a garota do caixa contabilizou os produtos e totalizou o valor a pagar o cliente entregou-lhe várias cédulas em pagamento. A caixa deveria devolver-lhe um troco que incluía uma fração de 10 centavos. Como já era de hábito – e diga-se que um dos centros promotores da NanoCorrupção são os velhos hábitos negativos que se enraízam nas pessoas – não havia moedas de 10 centavos no caixa. Qual a solução da moça: “O Senhor aceita uns caramelos para completar o troco?”. Ao que o cliente respondeu: “Não aceito. Prefiro os 10 centavos”. Ela insistiu: “Não tenho moedas de 10 centavos no caixa, por isso estou sugerindo que o senhor receba em bombons o seu troco”. Enquanto a discussão entre cliente e caixa se desenrolava a fila crescia e o pessoal já demonstrava irritação. Contra quem era a irritação? Pensem. Contra o cliente que não aceitava o troco em forma de caramelos ou bombons.

Incrível. Eu estava bem próximo do cliente exigente quando um cidadão saiu de sua posição bem atrás e se ofereceu para dar ao reclamante uma moeda de 10 centavos para que ele deixasse a fila andar. Paro aqui e deixo a apreciação do caso para o leitor. Este é um exemplo bem prático de corrupção e corruptores dentro desta modalidade nano.

A segunda forma é a MicroCorrupção. Esta já é bem perceptível e ocorrem também diariamente nas padarias, mercadinhos, açougues, etc. O exemplo mais comum é o do quilo de 950 gramas. O dono do açougue adultera o registro de peso da balança de tal forma que quando ele coloca o corte de carne para um quilo em verdade está pesando 950 gramas. Veja que em um açougue mediano desossam várias arroubas de boi por dia. Calcule no final do dia quantos quilos de carne deixaram de ser entregues aos clientes devido a este artifício. Considere apenas uma arroba equivalente a quinze quilos. Quanto os clientes pagaram sem levar em carne desse açougue? O mesmo ocorre em uma bomba de gasolina, na medição do consumo de água e de luz, nas corridas de taxi e tantos outros fatos que já sabemos muito bem e somos até coniventes o que nos coloca na posição de corruptores ou coparticipantes do sistema de microcorrupção.

A terceira forma é a MesoCorrupção. Esta ocorre nos processos de negociação entre vendedor e comprador de pequenas quantidades de materiais dentro de empresas comerciais e industriais. Geralmente as negociações de compra e venda de produtos e materiais para os suprimentos das empresas se fazem com a famosa “quebra” ou o “desconto” ou, ainda, o “chorinho” que o vendedor oferece para que o comprador fique com a mercadoria. Sei de casos em que compradores juniores acumularam benefícios superiores aos seus ganhos reais apenas recebendo essas propinas dos fornecedores. O fornecedor, por sua vez, repõe essas propinas através do “overprice” que coloca nas mercadorias. Muitas vezes ambos, vendedor e comprador se associam para as duas partes ganharem com o “overprice”. Coloquem a imaginação para funcionar e identifiquem outros exemplos de mesocorrupção.

A quarta forma é a MacroCorrupção. Bem. Neste caso o Brasil é campeão e as manchetes estão cheias de relatos. Não precisa ir muito longe buscar na história para desvendarmos os grandes casos de corrupções que assolaram os nossos governos. Vejamos apenas os recentes. São corrupções que acontecem nos órgãos públicos, nas empresas públicas e estatais, nos governos federal, estaduais e municipais e vão desde a compra de materiais para merenda escolar até os chamados mensalões e petrolões. Permito-me não narrar estes tipos porque são os mais amplamente visíveis e o leitor já está careca de saber ou ouvir falar deles.

É possível que exista uma forma que se chama de MegaCorrupção, a qual envolve as transações entre países ou entre empresas globalizadas sob a inspiração dos governantes ou seus emissários para fazer negociações. Mas vamos parar por aqui. Já exemplificamos o suficiente para as quatro formas que enumeramos. Um fato deve ser salientado. Qualquer um de nós está sujeito a ser levado na conversa e, às vezes de forma ingênua ou por simples desconhecimento ou inocência, aceitamos esses brindes, presentes, bônus, descontos, etc. que são oferecidos no mercado porque não olhamos tais ações como sendo maldades, mas acreditamos que façam parte de uma cultura mercadológica própria do capitalismo.

Encerro esta narrativa copiando uma mensagem muito pertinente que recebi da Organização Brahma Kumaris:
Mudança
"Agora é hora de mudança, tudo está chegando a um clímax. O fim da corrupção está perto. Temos que criar um mundo de verdade e amor. Cada um tem seu papel. Se comparo ou critico, perco tempo porque não posso mudar o papel dos outros. Então tenha pensamentos positivos para si. Contemple o que é bom. Vá para um estado de meditação. Mantenha as qualidades originais da alma (pureza, paz, amor, verdade, felicidade) na mente. Pense nas qualidades do Pai e não se preocupe”.
Brahma Kumaris


Pão, Paz e Liberdade

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O DIA EM QUE MARINA CHOROU


Quem disse que choro não dá voto? Dá, sim. Quem pensa que não dá está enganado. No Brasil o choro é capaz de resolver muitas coisas. E quando o choro é de uma mulher é melhor porque ele pode abrir o coração de outros e outras. Ele, o choro, é capaz de promover uma reconciliação entre duas pessoas e, até, entre contendores em uma disputa (por exemplo, uma disputa eleitoral).
O choro pode abrir portas que antes não davam acesso a fatores e coisas de interesse pessoal. Pode abrir passagem em uma multidão de pessoas confusas. Com o choro podemos fazer coisas até inimagináveis porque consegue comover e promover ou despertar o calor de emoções reprimidas. O choro pode ser também a manifestação ou indicação de um delírio, indicar a perda de algo precioso (como no caso do choro pela perda de um ente querido). O choro é o "jeitinho brasileiro" de "levar vantagem em tudo", de conseguir um desconto ou redução de juros em um compra. E a mulher é sempre mais chorona que o homem quando se trata de negociar a compra de um produto.
O choro também costuma representar a alegria por um prêmio, um elogio, um presente ou um ganho extra em alguma disputa. E, engraçado, no Brasil o choro é um ritmo musical alegre e às vezes melancólico e um complemento a mais na dose de uma bebida (por exemplo, um cliente pode pedir ao garçom para não esquecer o chorinho ao colocar a dose de whisky no copo). No caso de música o chorinho brasileiro é um ritmo meloso, dengoso e gostoso de se ouvir e, quando solado com um cavaquinho ou bandolim bem afinado e bem executado dá até para cochilar ou servir de fundo melodioso para se fazer uma meditação, uma reflexão e, até... recordar coisas boas e... chorar de saudade. E o choro vem sempre depois da sagrada frase bem brasileira: "Eu era feliz e não sabia!".
O certo é que o choro é uma necessidade porque expressa algo verdadeiro ou sincero como a saudade do tempo em que alguém militava em uma facção política, por exemplo, e era aplaudida, reverenciada pela sua origem humilda, endeusada como a ninfa da sustentabilidade ecológica (mesmo que não sustentasse nada interessante para as pessoas e a natureza) e tinha, por tudo isso, um protetor, um tutor, um mentor de renome nacional e, até, internacional, que, de certa forma, exercia o papel de predecessor político porque parecia lutar por causas justas e populares (ou impopulares para os opositores).
A perda de apoio de um mentor político que pretere a progressão de alguém a favor de outra militante de carreira dos tempos de clandestinidade pode produzir um choro de ciúme ou um choro de raiva e descontentamento. É como se sentir abandonado em uma estrada deserta sem ao menos ter em mão uma bússola para servir de orientação. E qual a reação em casos assim? Aí a compensação do choro resulta em fuga. Fugir de uma facção (partido) política para outra e outra e outra até achar uma que sirva de muleta. Quebrar regras partidárias ou ideológicas até conseguir acomodação em um grupo que também já vinha amargando frustração por não ver cumpridos os acordos políticos realizados entre as partes no ou do poder. Nessas situações quase sempre pular de partido em partido é a saída, senão a desistência total de seguir pela estrada (que seja melhor) que surja e possa alberga-la.
O dia em que Marina chorou enquadra-se nestas metáforas. Pode ter sido uma jogada ou um choro de pura emoção ou, mesmo, de frustração por se sentir abandonada pelo seu guru. Um choro de desgosto por sentir-se duplamente enganada, preterida ou abandonada no passado e rejeitada em suas pretensões políticas. Pode ser um choro de fingimento para provocar o sentimentalismo tendo como muleta o acidente aéreo que vitimou seu companheiro de chapa e, assim, provocar a emoção de uma massa ingênua e crédula, que também chora por qualquer motivo. Mesmo sem saber as evidências do motivo, porque aceita qualquer benesse, ainda que não tenha relação com sentimentos verdadeiros ou para estimular e comover a presença das pessoas, como ocorre com as carpideiras em um velório que, com um véu negro sobre a cabeça, vertem lágrimas diante do defunto. Muitas vezes é o quase defunto Brasil que ainda está agonizando; que ainda acredita em lavadas mentiras como sendo verdades que podem promover a sua recuperação.
No dia em que Marina chorou foi assim. Todo mundo chorou (ou quase todos) junto e correram para o abraço e para apoia-la diante dos insultos do apedeuta, dizendo: “Não se incomode, minha filha, vamos dar o troco para eles no dia da eleição”. Esta pode ter sido (e acredito que no íntimo da ingenuidade brasílica foi o que aconteceu) porque o brasileiro é assim: sempre solidário (como as carpideiras) com a tristeza do outro ou com a alegria por ter alcançado uma graça. Não importa. O que interessa é estar com a multidão seja por conhecimento de causa ou não, seja por corrupção ou não. Dane-se o avião comprado com lavagem de dinheiro. Ninguém está interessado nesse evento que já passou e como a memória histórica é curtíssima ninguém vai mais se emocionar por essas evidências. "Se foi assim digo que não sei e que não sabia de nada" e fica por isso mesmo. A multidão silenciosa sorri e segue o cortejo. Adeus Brasil. Até a próxima jornada quando tudo começará de novo, com risos, lágrimas e novos corruptos e corruptores. Vamos seguindo no embalo do gostoso chorinho bem brasileiro, que se dane a economia: “Não estou nem aí se houver quebradeira, pois já ganhei prótese dental nova, laqueadura, telhado e blocos, para recuperar a choupana sem falar que ainda tenho crédito na quitanda de seu Joaquim com a bolsa quitanda. Para completar, estou na fila para receber um rancho pelo programa minha casa, minha vida”. Quer mais?

Pão, Paz e Liberdade