Seja Empreendedor

Seja Empreendedor
Livro Digital

sábado, 4 de janeiro de 2014

A educação


Terceiro capítulo selecionado do E-Book de Cappelletti, A Ideologia Anarquista. É interesse para quem é estudante e para quem leciona conhecer as ideias pedagógicas libertárias para poder comparar metodologias e avaliar se estamos avançando ou não em termos educacionais. Possivelmente a deficiência da criatividade pode estar, também, na falta de liberdade para o estudante e o profissional poder expressar suas ideias e suas criações. Leiam e confiram as ideias atuais (em prática nas escolas) e as que são indicadas neste capitulo. Jovino Moreira da Silva

Os primeiros pensadores anarquistas, como Godwin, consideram que a educação é o fator principal da transformação social e o meio mais importante para chegar a uma sociedade sem Estado. Trata-se de uma herança da filosofia do Iluminismo (e, em particular, do pensamento de Helvetius) que compartilham com os socialistas utópicos (Fourier, Owen, etc.).

Também para Bakunin a educação reveste enorme importância, porém, fixado já, como Marx, no contexto da luta de classes e da revolução social, não pode considera-la como instrumento da mudança social.
Bakunin assinala a inutilidade e a incongruência do esforço de positivistas e utilitaristas (e, em geral, da burguesia progressista) por fundar escolas e promover a educação popular: antes de fornecer instrução é preciso assegurar o pão, a roupa e a habitação, e a maioria das classes populares não os têm assegurados. Eis aqui, pois, que para qualquer espírito lógico e bem informado da realidade primeiro será necessário promover a mudança social (que para ser efetivo deverá ser radical e não poderá conseguir-se senão com a revolução) e depois poderá pensar-se em instruir e educar o povo.[1]

Esta ordem não é, no entanto, absoluta, desde que para quase todos os anarquistas (e mesmo para o próprio Bakunin) a revolução não pode ocorrer sem uma certa consciência revolucionária, que implica um mínimo de instrução e educação. Eis aqui porque Bakunin insiste ao mesmo tempo na necessidade de educar as massas e de transformar as igrejas em escolas da emancipação humana; eis aqui porque uma das exigências prioritárias da Primeira Internacional foi a educação integral e igualitária; eis aqui porque a Comuna em meio de sua cruenta luta, não deixou de fundar escolas laicas e humanitárias para a infância parisiense; eis aqui, enfim, porque as organizações operárias de tendência anarquista ( como a CNT na Espanha) não descuidaram nem em seus momentos mais difíceis a criação de escolas elementares para a educação dos trabalhadores e de seus filhos.

A pedagogia libertária parte da ideia de que a criança (o educando) não é “propriedade” de ninguém, nem de seus pais, nem do Estado, nem da Igreja e que pertence, como disse Bakunin só a sua liberdade futura ou, como preferem dizer outros, a sua liberdade atual.

A base de toda pedagogia anarquista é, obviamente,  a liberdade. Toda coação e toda imposição não só constituem em si mesmas violações aos direitos do aluno, senão que também deformam sua alma para o futuro e contribuem para criar máquinas ou escravos em lugar de homens livres. O tem da escola ácrata é, por conseguinte, “a liberdade do homem pela liberdade da criança”. E ainda quando na interpretação deste lema há diferentes critérios (desde o de Bakunin, que considera necessário certo uso da autoridade para formar na criança um caráter firme e disciplinado, até o de Tolstoi e outros pedagogos mais recentes que excluem absolutamente toda coação e toda imposição), em geral os anarquistas estão de acordo em rechaçar todos os modelos pedagógicos tradicionais, precisamente por suas características autoritárias e coativas.[2]

A uma pedagogia deste tipo se acercaram notavelmente desde fins do século XIX até nossos dias alguns pedagogos alheios, em princípio, ao anarquismo como ideologia e como filosofia político-social. Tais foram, por exemplo, os que fundaram em Hamburgo e outras cidades alemãs as Gemeinschaftschule (comunidades escolares), a Kinderheim Baumbgarten em Viena, a Kearsley School, etc.; figuras como as de Ellen Key Berthold Otto, M.A.S. Neill, etc.[3]

O principal problema que a pedagogia declaradamente anarquista deve enfrentar, é, precisamente, o dos conteúdos anarquista do ensino.

A maioria dos pedagogos anarquistas optou por substituir a cosmovisão cristã ou liberal que informava todo o ensino na escola tradicional por uma cosmovisão “científica”, que pelo geral é mais bem “cientificista” e materialista. O ensino da história e das ciências sociais compreende uma crítica aberta ao Estado, à Igreja, à Família; se baseia na ideia da luta de classes ou, mais propriamente, da luta dos explorados e oprimidos em geral contra as classes e grupos dominantes; não evita os ataques diretos contra o capitalismo, a burguesia, o clero, o exército, etc. Esta solução, que é a da Escola Moderna de F. Ferrer, aproxima a pedagogia libertária da marxista. Trata-se de proporcionar uma educação classista, socialista, definitivamente ideológica.

Outros pedagogos anarquistas, em troca, como Mella na Espanha, consideram que uma escola verdadeiramente libertária deve ser neutra frente a qualquer filosofia ou concepção do mundo, nem materialista nem espiritualista, nem ateia nem teísta, etc., e que sua missão essencial será formar personalidades com grande independência e espírito crítico, capazes de decidir por si mesmas respeito a estes e todos os demais problemas teóricos e práticos que devam enfrentar em sua vida adulta. Desde este ponto de vista, se aproximam mais de instituições tais como Summerhill.[4]

Em qualquer caso, toda pedagogia anarquista considera indispensável a integração do trabalho intelectual com o trabalho manual; insiste no valor da experimentação pessoal e direta; considera  jogo (ainda que não o esporte puramente competitivo) coo excelente meio educativo, tende a suprimir os exames, as qualificações, as concorrências acadêmicas, os prêmios e os castigos ao mesmo tempo em que fomenta a solidariedade, a curiosidade desinteressada, a ânsia de saber, a liberdade para pensar, escrever e construir, etc.

Extraído do E-Book: Ángel J. Cappelletti.La Ideologia Anarquista, Cap. 13. Traduzido por Adm. Jovino Moreira da Silva, M. Sc. em 29/12/2013






[1].   Cf. G. LEVAL, La pedagogía de Bakunin, «Reconstruir», 100.
[2].    Cf. J. ÁLVAREZ JUNCO, La ideología política del anarquismo español, Madrid, 1976, p. 529.

[3].     Cf. J. R. SCHMID, El maestro compañero y la pedagogía libertaria, Barcelona, 1976
[4].    Cf. ERA 80, Els anarquistes, educadors del poble. «La Revista Blanca» (1898‑1905), Barcelona, 1977, p. 201.