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Livro Digital

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Pacifismo e violência


Publico o segundo capítulo selecionado do E-Book de  Ángel J. Cappelletti.La Ideologia Anarquista, Cap. 11.

O anarquismo repudia as guerras entre Estados, antes de tudo porque repudia o Estado. Toda guerra deste tipo, em efeito, tem por fim afirmar e expandir  poder de um Estado em detrimento de outro.
A partir de Bakunin a guerra se interpreta como uma luta para impor os interesses de um setor da classe burguesa sobre outro. Posto que o que importa é a defesa dos capitais e das empresas vernáculas, pelo que lutam os capitalistas e os empresários, argumenta a propaganda anarquista antibélica dirigida, sobretudo, aos trabalhadores e camponeses. Neste ponto tal propaganda coincidiu durante muito tempo com a dos socialistas marxistas.
Porém o anarquismo não se detém em condenar o fato da guerra. Condena também a instituição mesma do exército. Não é só antibelicista senão também antimilitarista. E isso não somente porque vê nas Forças Armadas um dos mais sólidos suportes do Estado e da classe dominante, senão também porque considera a qualquer Exército uma instituição baseada na obediência absoluta e estruturada vertical e hierarquicamente. Até poderia dizer-se que vê no Exército o arquétipo ou a ideia pura do Estado, com seus dois elementos essenciais  (coação‑hierarquia).[1]
Esta oposição à guerra baseada no internacionalismo e no antiestatismo, parece comportar uma oposição à violência.
No entanto, a maioria dos anarquistas considera que a ação direta, sob a forma de ação violenta e terrorista contra o Estado e contra a burguesia, é não só um meio lícito senão também o único meio possível em muitas circunstâncias para alcançar os fins propostos, a saber, a sociedade sem classes e sem Estado. Mais ainda, durante muito tempo (e ainda hoje), prevalece na fantasia popular, no jornalismo e na literatura, a imagem do anarquista como bombardeiro e «atirador de bombas».[2]
É preciso esclarecer, portanto, o ponto.
Em primeiro lugar, deve fazer-se notar que há e houve muitos anarquistas adversos ao usa da violência. Nem Godwin nem Proudhon nunca a propiciaram: o primeiro como filho do Iluminismo, confiava na educação e na persuasão racional; o segundo considerava que uma nova organização da produção e da mudança bastaria para acabar com as classes sociais e com o governo propriamente dito. Mais ainda, alguns anarquistas, como Tolstoi, eram tão radicalmente pacifistas que faziam consistir seu Cristianismo coincidente com sua visão anárquica, na não resistência ao mal. Para eles, toda violência engendra violência e poder, e não se pode combater o mal com o mal[3].
Porém ainda entre aqueles que admitem a violência sob a forma do atentado e do terrorismo, não há nenhum que a considere como algo absolutamente indispensável ou como a forma única de luta social. Todos, sem exceção, veem nela um mal imposto aos oprimidos e explorados pelos opressores e exploradores. O próprio Bakunin não tem outro ponto de vista, e nisto se diferencia profundamente do puro adorador da violência, isto é, do niilista ao estilo de Nechaev[4]. Kropotkin, Malatesta e  quantos vieram depois deles a consideram como um recurso extremo, como uma lamentável necessidade.
Em segundo lugar, é preciso advertir que esta relativa aprovação da violência não supõe nenhuma contradição com a negação da guerra entre Estados e com a condenação do militarismo. Para quem parte do princípio de que o verdadeiro sujeito da história e da moralidade é a pessoa humana e a sociedade livremente constituída não pode haver nada mais imoral que  a privação da liberdade e da igualdade para as pessoas nem nada mais criminoso que sua subordinação a instituições consideradas artificiais e, mais ainda, essencialmente inimigas da liberdade e da igualdade, como são os governos, as dinastias, os Estados. O homem pode e deve sacrificar-se pelos altos valores que o fazem homem, morrer e ainda matar pela liberdade e pela justiça; não tem por que morrer nem matar em defesa de quem é um natural negador de tais valores, isto é, do Estado (e das classes dominantes). A revolução e até o terrorismo podem parecer assim direitos e obrigações; a guerra, pelo contrário, não será senão uma criminosa aberração.[5]
A questão que, em última análise, ainda fica proposta é, no entanto, a seguinte: Quando se exerce a violência, qualquer que seja esta e qualquer que sejam seus motivos e seus fins não se está exercendo já o poder? Os anarquistas contestarão que eles lutam contra o poder estabelecido e permanente que é o Estado, não contra qualquer forma de poder e que o poder que a violência comporta é lícito quando é pontual e funcional, ilícito quando se consolida e se converte em estado-Estado. Porém caberia perguntar, todavia: A violência pontual e funcional não tende sempre a converter-se em permanente e estatal?

Extraído do E-Book: Ángel J. Cappelletti.La Ideologia Anarquista, Cap. 11. Traduzido por Adm. Jovino Moreira da Silva, M. Sc. em 28/12/2013.

Meu comentário para este capitulo :
O autor apresenta de maneira direta e explicita o seu pensamento sobre a ideia de pacifismo e violência segundo a ideologia anarquista. Este posicionamento como apresentado é clássico e já não corresponde a uma plena posição ideológica anarquista, segundo a minha visão, embora seja interessante porque traz a lume de forma clara a desmistificação do conceito de anarquia que tem sido deturpado tanto pelo liberalismo individualista e acumulador de riqueza quanto pelo social-comunismo centralizador de poder e de riqueza, para os quais o movimento anarquista só tem posição destrutiva e improdutiva. Quem promove a violência destrutiva são aqueles que procuram deturpar e combater o anarquismo e procura induzir na massa des-educada a ideia de caos, de desordem, de terror. Nada disso é verdadeiro e nas entrelinhas do texto o autor mostra exatamente o contrário : que a ideologia anarquista promove a criação e o desenvolvimento com liberdade e não por coação nem por repressão.
Pão, Paz e Liberdade, é o chamamento para uma vida plena e criativa e não destrutiva. Enquanto o Estado em suas duas principais versões de poder primam pela destruição da Natureza e pelo atiçamento de um consumismo negativo desenfreado, vejo que o oposto é pregado pela ideologia anarquista. Como sigo as ideias de Proudhon, para mim ser pacífico é ser educado, evoluído e colaborador para o desenvolvimento humano e social.



[1].    Cf. 1. L. HOROWITZ, Fundamentos de sociología política, México, 1977, pp. 204‑207; Varios, Tolstoismo y anarquismo, «La Revista Blanca», Madrid, 1900.
[2].     Cf. A. GORELIK, El anarquismo y la violencia, «La Revista Blanca», Madrid, 1935; F. HARRIS, The Bomb, London, 1908.
[3].     Cf.  F‑ J. SIMMONS, Tolstoy, Boston, 1946; J. V. BONDURANT, Conquest of Violence: The Gandhian Philosophy of Conflict, Princeton, 1958; BART DE LIGT, The Conquest of Violence, London, 1937.
[4].     Cf. H. DEWAR, Assasins at large, London, 1951; R. HUNTER, Violenceand the Labor Movement, New York, 1914; J. CONRAD, The Secret Agent, London, 1907; D. AURICH, Bakunin y Nechaev, «Ruta», Caracas, núm. 25.
[5].   Cf. A. CARTER, op. cit. pp. 95‑98

sábado, 28 de dezembro de 2013

Autogestão


Se algum conceito prático e operativo pudesse sintetizar a essência da filosofia social do anarquismo, este seria o da autogestão. Assim como o próprio Proudhon, que utilizou pela primeira vez a palavra anarquismo, dando-lhe um sentido não pejorativo e usando-a para designar seu próprio sistema socioeconômico e político, logo preferiu substituí-la por outra (mutualismo, democracia industrial, etc.) que tivera um significado positivo (e não meramente negativo como “an-arquismo”), hoje poderíamos considerar que o termo “auto-gestão” é um sinônimo positivo do “anarquismo”.

Entretanto, tal equivalência semântica não se pode estabelecer antes de haver deixado estabelecida uma série de premissas e de haver feito uma série de precisões. A palavra “autogestão” e o conceito que representa são de origem claramente anarquista. Mais ainda, durante quase um século esse conceito (que não é a palavra) foi o santo e a senha dos anarquistas dentro do vasto âmbito do movimento socialista e operário[1].

Nenhuma ideia separou mais enfaticamente a concepção anarquista e a concepção marxista do socialismo no seio da Primeira Internacional do que a da autogestão operária.

Porém nas últimas décadas a ideia e, sobretudo, a palavra, foram se difundindo fora do campo anarquista e expandindo em terrenos ideológicos muito alheios ao socialismo libertário e, por isso mesmo, perderam peso e densidade, se diluíram e trivializaram. Hoje falam de “autogestão” socialdemocratas e eurocomunistas, democratas cristãos e monárquicos.

Às vezes se confunde a “autogestão” com a chamada “co-gestão”, em que os anarquistas podem não menos do que ver um truque cruel do neocapitalismo. Às vezes, se a vincula com a economia estatal e de a fixa no marco jurídico-administrativo de um Estado, com democracia “popular” (Yugoslávia) ou “representativa” (Israel, Suécia), etc.. Uma sombra de “autogestão” pode encontrar-se inclusive nas “comunas camponesas” do mastodôntico império marxista-confuciano da China. E não faltam tampouco rastros da mesma em regimes militares (como o que se implantou no Peru em 1967) ou em ditaduras islâmico-populistas (como a da Líbia).

Porém a autogestão da qual falam os anarquistas é a autogestão integral, que supõe não só a tomada de posse da terra e dos instrumentos de trabalho por parte da comunidade laboral e a direção econômica e administrativa da empresa em mãos da assembleia dos trabalhadores, senão também a coordenação e, mais, todavia, a federação das empresas (industriais, agrárias, de serviço, etc.) entre si, primeiro em nível local, depois em nível regional e nacional e, finalmente, como meta última em nível mundial.

Se a autogestão se propõe em forma parcial, se nela intervém (ainda que seja desde longe e como mero supervisos) o Estado, se não tende desde o primeiro momento a romper os moldes da produção capitalista, deixa em seguida de ser autogestão e se converte, no melhor dos casos, em cooperativismo pequeno-burguês.

Por outra parte, não se pode esquecer que uma economia autogerida é socialista – mais ainda, parece aos anarquistas a única forma possível de socialismo – não só porque nelas a propriedade dos meios de produção deixou de estar em mãos privadas, senão também, e consequentemente, porque o fim da produção deixou de ser o lucro[2].

De fato, o maior perigo de toda tentativa autogerida da qual alguma vez se deu em um contexto revolucionário (como na Espanha de 1936-1939), é marcada sobre a forte inclinação, que séculos de produção capitalista deixaram na mente dos trabalhadores, para a ganância e a acumulação capitalista.

Uma vez salvo todas as armadilhas anteriores (entre as quais emergem uma tão dura e áspera como o Estado), a autogestão deverá salvar ainda a mais perigosa e mortal de todas: a tendência pra reconstruir uma nova forma de capitalismo. 

Extraído do E-Book: Ángel J. Cappelletti.La Ideologia Anarquista, Cap. 8. Traduzido por Adm. Jovino Moreira da Silva, M. Sc.

Comentário do tradutor
Este texto de Cappelletti, cujo capitulo 8 selecionei para publicar aqui no Blog, apresenta de modo objetivo e direto um retrato muito bom do que seja o Anarquismo como base ideológica para superar tanto o Capitalismo em suas várias facetas, quanto o Socialismo centralizador que vem travestido pelos diversos tipos de ditaduras populistas ou não trazendo ainda de face um enganador refrão democrático. Selecionei outros dois capítulos que logo serão publicados neste Blog.




[1].   Cf. R. GUÉRIN, op. cit. p. 36 ss. Sobre diversas interpretaciones de la autogestión véase R. MASSARI,  Las teorías de la autogestión, Madrid, 1975.
[2].   El más importante intento de autogestión integral es tal vez el que se llevó a cabo en la España de 1936-1939 (Cf. Frank MINTZ, La autogestión e n la España revolucionaria, Madrid, 1977).