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Livro Digital

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O DIA EM QUE MARINA CHOROU


Quem disse que choro não dá voto? Dá, sim. Quem pensa que não dá está enganado. No Brasil o choro é capaz de resolver muitas coisas. E quando o choro é de uma mulher é melhor porque ele pode abrir o coração de outros e outras. Ele, o choro, é capaz de promover uma reconciliação entre duas pessoas e, até, entre contendores em uma disputa (por exemplo, uma disputa eleitoral).
O choro pode abrir portas que antes não davam acesso a fatores e coisas de interesse pessoal. Pode abrir passagem em uma multidão de pessoas confusas. Com o choro podemos fazer coisas até inimagináveis porque consegue comover e promover ou despertar o calor de emoções reprimidas. O choro pode ser também a manifestação ou indicação de um delírio, indicar a perda de algo precioso (como no caso do choro pela perda de um ente querido). O choro é o "jeitinho brasileiro" de "levar vantagem em tudo", de conseguir um desconto ou redução de juros em um compra. E a mulher é sempre mais chorona que o homem quando se trata de negociar a compra de um produto.
O choro também costuma representar a alegria por um prêmio, um elogio, um presente ou um ganho extra em alguma disputa. E, engraçado, no Brasil o choro é um ritmo musical alegre e às vezes melancólico e um complemento a mais na dose de uma bebida (por exemplo, um cliente pode pedir ao garçom para não esquecer o chorinho ao colocar a dose de whisky no copo). No caso de música o chorinho brasileiro é um ritmo meloso, dengoso e gostoso de se ouvir e, quando solado com um cavaquinho ou bandolim bem afinado e bem executado dá até para cochilar ou servir de fundo melodioso para se fazer uma meditação, uma reflexão e, até... recordar coisas boas e... chorar de saudade. E o choro vem sempre depois da sagrada frase bem brasileira: "Eu era feliz e não sabia!".
O certo é que o choro é uma necessidade porque expressa algo verdadeiro ou sincero como a saudade do tempo em que alguém militava em uma facção política, por exemplo, e era aplaudida, reverenciada pela sua origem humilda, endeusada como a ninfa da sustentabilidade ecológica (mesmo que não sustentasse nada interessante para as pessoas e a natureza) e tinha, por tudo isso, um protetor, um tutor, um mentor de renome nacional e, até, internacional, que, de certa forma, exercia o papel de predecessor político porque parecia lutar por causas justas e populares (ou impopulares para os opositores).
A perda de apoio de um mentor político que pretere a progressão de alguém a favor de outra militante de carreira dos tempos de clandestinidade pode produzir um choro de ciúme ou um choro de raiva e descontentamento. É como se sentir abandonado em uma estrada deserta sem ao menos ter em mão uma bússola para servir de orientação. E qual a reação em casos assim? Aí a compensação do choro resulta em fuga. Fugir de uma facção (partido) política para outra e outra e outra até achar uma que sirva de muleta. Quebrar regras partidárias ou ideológicas até conseguir acomodação em um grupo que também já vinha amargando frustração por não ver cumpridos os acordos políticos realizados entre as partes no ou do poder. Nessas situações quase sempre pular de partido em partido é a saída, senão a desistência total de seguir pela estrada (que seja melhor) que surja e possa alberga-la.
O dia em que Marina chorou enquadra-se nestas metáforas. Pode ter sido uma jogada ou um choro de pura emoção ou, mesmo, de frustração por se sentir abandonada pelo seu guru. Um choro de desgosto por sentir-se duplamente enganada, preterida ou abandonada no passado e rejeitada em suas pretensões políticas. Pode ser um choro de fingimento para provocar o sentimentalismo tendo como muleta o acidente aéreo que vitimou seu companheiro de chapa e, assim, provocar a emoção de uma massa ingênua e crédula, que também chora por qualquer motivo. Mesmo sem saber as evidências do motivo, porque aceita qualquer benesse, ainda que não tenha relação com sentimentos verdadeiros ou para estimular e comover a presença das pessoas, como ocorre com as carpideiras em um velório que, com um véu negro sobre a cabeça, vertem lágrimas diante do defunto. Muitas vezes é o quase defunto Brasil que ainda está agonizando; que ainda acredita em lavadas mentiras como sendo verdades que podem promover a sua recuperação.
No dia em que Marina chorou foi assim. Todo mundo chorou (ou quase todos) junto e correram para o abraço e para apoia-la diante dos insultos do apedeuta, dizendo: “Não se incomode, minha filha, vamos dar o troco para eles no dia da eleição”. Esta pode ter sido (e acredito que no íntimo da ingenuidade brasílica foi o que aconteceu) porque o brasileiro é assim: sempre solidário (como as carpideiras) com a tristeza do outro ou com a alegria por ter alcançado uma graça. Não importa. O que interessa é estar com a multidão seja por conhecimento de causa ou não, seja por corrupção ou não. Dane-se o avião comprado com lavagem de dinheiro. Ninguém está interessado nesse evento que já passou e como a memória histórica é curtíssima ninguém vai mais se emocionar por essas evidências. "Se foi assim digo que não sei e que não sabia de nada" e fica por isso mesmo. A multidão silenciosa sorri e segue o cortejo. Adeus Brasil. Até a próxima jornada quando tudo começará de novo, com risos, lágrimas e novos corruptos e corruptores. Vamos seguindo no embalo do gostoso chorinho bem brasileiro, que se dane a economia: “Não estou nem aí se houver quebradeira, pois já ganhei prótese dental nova, laqueadura, telhado e blocos, para recuperar a choupana sem falar que ainda tenho crédito na quitanda de seu Joaquim com a bolsa quitanda. Para completar, estou na fila para receber um rancho pelo programa minha casa, minha vida”. Quer mais?

Pão, Paz e Liberdade