Seja Empreendedor

Seja Empreendedor
Livro Digital

sábado, 16 de setembro de 2017


PRIMEIRO CAPÍTULO DO LIVRO L.I.D.E.R. IDEIAS E PRINCÍPIOS

INTRODUÇÃO

Realizei leituras e escrevi ou criei um número significativo de trabalhos, na forma de consultorias para apoiar os micro e os pequenos negócios, bem como as cooperativas em geral. Também facilitei a recuperação de comunidades, na forma de centros de oportunidades de negócios e coletivos de negócios para o desenvolvimento sustentável autogerido.

Pode-se dizer que essas ideias começaram na dissertação de mestrado, quando investiguei a situação de um distrito industrial e apresentei e discuti um redesenho das ideias defendidas por alguns economistas, sobre desenvolvimento de polos e distritos industriais, segundo uma visão estratégica e empreendedorial da Administração. Após os devidos estudos e pesquisas, consolidei as ideias na tese que chamei de Ciclo GCEQ (SILVA, 1995), sigla derivada das palavras: Governo, Ciência e Tecnologia, Empreendedores e Investidores, e Qualidade e Mercado. Em verdade o ciclo formaria a sigla GCEM, mas substitui o M de Mercado  por Q de Qualidade para focalizar a qualidade de produtos e serviços  além da qualidade de consumo e de vida como uma das finalidades de uma empresa. Preferi Qualidade em lugar de Mercado porque esta palavra, para mim, traz a ideia de quantidade e espaço fechado, quando o que me interessava era a ideia de desenvolvimento além da posição apenas econômica quantitativa (micro e macro) como aprendi nos livros dos teóricos que estudei. Ao contrário de usar o Mercado percebi que a Qualidade oferecia uma significação mais holística para o propósito que tinha em mente. Também levei em consideração, naquele momento, que “mercado” dava uma ideia de lugar apenas lógico, funcional, racional, material e linear, e isto ia de encontro a um enfoque de administração dinâmica e integral defendida em meus estudos, e não era bem assim que eu orientava os constructos de minha tese.

Ao reestruturar a tese de Jorge SÁBATO (1970 [2004, p. 41]), economista argentino, denominada Triângulo de Sábato da Economia para o desenvolvimento, meu trabalho de mestrado não se resume a mais um “tratado” de economia; mesmo porque a economia apenas serviu de subsídio para posicionar uma visão empresarial e estratégica no desenvolvimento de distritos industriais e, ainda mais, porque a Economia é uma das disciplinas importantes que subsidiam os Princípios Gerais da Administração (PGA).

Pois bem, naquele trabalho de conclusão do mestrado apresentei ideias básicas para a discussão de meios e métodos visando o rejuvenescimento, a recuperação e a reorganização do Distrito Industrial dos Imborés, em Vitória da Conquista – BA (que foi o objeto de estudo). Uma das ideias poderia, como fruto da pesquisa, resultar na criação de um espaço para a incubação de negócios de acordo com as linhas de estudo, pesquisa e eixos de cadeias produtivas locais e regionais que pudessem apresentar condições para a criação de processos industriais. Isto lá pelos idos de 1990-1995.

Naquele momento pouco se falava na Bahia em empreendedorismo, incubadora de empresas, cluster, arranjos produtivos locais (APL) e outros termos que correspondiam a novas ideias de desenvolvimento econômico. Contudo, não se deve esquecer a grande contribuição que foi dada pelo saudoso Rômulo Almeida[1], cujas ideias não foram bem entendidas à época em virtude de orientações ideológicas que predominavam entre os pensadores, economistas, intelectuais e políticos brasileiros (em especial os baianos). Rômulo Almeida, assim como Luiz Tarquínio, nunca aparece ou é citado nos textos escolares e muito menos na História da Bahia.

Não faz parte de este livro discutir orientações político-partidárias e nem economia, uma vez que, mesmo sem concordar com qualquer dessas orientações, o escopo do Sistema L.I.D.E.R., como proposta para o desenvolvimento humano no ambiente negocial, vai além das ideologias vigentes no mundo atual.

As ideias sobre empreendedorismo e incubação de empresas começavam a tomar corpo nas universidades e centros culturais no Sul e Sudeste do Brasil a partir dos anos 80. Um dos primeiros trabalhos publicados no país foi o livro de Degen (1985). Começam, assim, as primeiras discussões sobre as necessidades de transferência de tecnologia da academia para as empresas e, entre os iniciadores, no sentido tecnológico, estava a Universidade Federal de São Carlos.

Pouco se falava ou discutia sobre Spin-Offs[2] no ambiente acadêmico e as Empresas Juniores ainda não se revelavam com valor prático. O empreendedorismo de base tecnológica era apenas uma pequena luz, de algumas ideias e projetos, que aparecia nesse ambiente com poucas publicações sobre estes temas.

Não quero aqui dissertar sobre esta história ou recopilar minha dissertação de mestrado (a qual poderá ser revista para publicação). O que interessa nesta apreciação preliminar é a possibilidade de começarmos a falar uma linguagem empreendedorial e cooperativa própria e que seja interessante para os sonhadores e visionários de nossas regiões paradoxais. Temos que discutir sobre uma Nova Administração que seja menos Mecânica que a atual.

Isto é de significativa importância para que se possa conduzir, com Seriedade, Amor, Paixão, Atitude e Determinação, um processo de industrialização no Brasil. Em especial na Região Nordeste, a qual existe hoje como um mero mercado consumidor de produtos e serviços produzidos no Sudeste e no Sul. O que se pensa agora é como superar a atual letargia negocial que tem como base apenas o eixo mercantil, associado ao de serviços, com qualidade duvidosa; a este se adiciona o eixo agropecuário, em especial de base latifundiária, para produzir commodities, o qual não oferece condições suficientes para se reduzir a pobreza e melhorar o IDH dessas regiões, porque apenas estimula e reforça o sistema feudo-patrimonialista dinástico dominador e concentrador de renda.

Trabalho com um projeto que não visa à distribuição de riqueza (conceito da economia política liberal e da política ideológica socialista), mas a Redução da Pobreza (conceito que considero de base administrativa, cooperativista, mutualista, libertária, socioeconomista e empreendedorial). Este Projeto envolve conhecimentos transdisciplinares e não apenas deterministas, fragmentários, pragmáticos ou meramente acadêmicos (sejam de economia, sejam de sociologia), para alcançar objetivos efetivos nas diversas comunidades regionais.

Neste livro apresento ideias e princípios que poderão contribuir para projetos capazes de promover a reconstrução das comunidades no sentido que denomino de Administração de Comunidades Empreendedoriais Cooperativadas com foco, sobretudo, na situação brasileira. O modelo de sistema que discuto tem por base o acrônimo L.I.D.E.R. Este acrônimo coincide com a palavra líder usada em Administração, Sociologia e Psicologia. Contudo, seu conteúdo não irá tratar deste tema de forma específica embora tenha relações com princípios de liderança. Neste projeto utilizo conceitos sustentados por uma interessante orientação científica como postulada, por exemplo, por Wheatley (2002) e outros pesquisadores, tais como Goleman; Boyatizis; Mckee (2002), Santos (2000), Beauport; Diaz (1998), Maturana (2002), Chibber (2003), Edvinsson (2003) e Parikh (1997) no caso de liderança, criatividade, intuição, capital intelectual, etc.

Vejamos, então, o conteúdo desta proposta de Sistema L.I.D.E.R., cujos elementos-chave apresento no quadro abaixo. O quadro mostra os domínios a serem tratados em um projeto voltado para o desenvolvimento de sistemas humanos:

Sistema
Significado (ou Arte)
L
Ler 
I
Interpretar
D
Desenvolver, Desaprender
E
Estudar
R
Realimentar (Reaprender, Refletir)

O desenvolvimento de comunidades, dentro do que vem especificado em minhas ideias, requer que ocorra uma transformação de base firme e sólida,  através de propostas e planos capazes de gerar projetos consistentes.

Para se aplicar bem este sistema é interessante haver uma estrutura educacional que siga os caminhos de uma educação integral (tema de outro livro em elaboração). Um dos déficits de crescimento e desenvolvimento registrados no Brasil está na produção de conhecimento útil aplicado aos negócios e disponíveis para as comunidades produtivas. Sem conhecimento útil e essencial não mais se conseguirá desenvolvimento em uma infossociedade.

Isto irá requerer uma mudança. Começa no sistema pedagógico vigente no país, denominado em meus artigos de Pedagogia do Não ou de Almoxarifado, até a introdução e iniciação de um sistema capaz de substituí-lo no nível de educação adulta, que chamo de Andragogia Empreendedorial Cooperativada (AEC). Daí o ser humano poderá evoluir ao nível da Heutagogia que é o domínio, por si mesmo, do conhecimento e das soluções e decisões para os problemas pessoais e organizacionais e pode servir de base para um sistema de autogestão e autonomia organizacional. Este autoconhecimento, em alguns casos, pode ser aceito como “Notório Saber”.

Uma mudança no modelo pedagógico para a educação de adultos (que priorize a Andragogia e a Heutagogia) é de suma importância (e urgência), sem o que não terá nenhuma validade os esforços despendidos através de projetos como este de Sistema L.I.D.E.R. e outros importantes que podem contribuir para uma mudança na organização. Sem explicitamente definir o seu sistema de aprendizagem como heutagógico, os japoneses já praticavam, antes e depois da II Guerra, um sistema “pedagógico” diferenciado, o qual teve papel decisivo no desenvolvimento socioeconômico que ocorreu naquele país (VOGEL, 1982). É possível que uma forma de coletivismo positivo e proativo tenha ajudado para tal transformação se processar.

Não poderemos ter comunidades desenvolvidas sem Educação, sem Cooperação e sem uma filosofia de negócio que escolhi chamar de Empreendedorismo. Sim. Porque, antes de tudo, empreendedorismo é uma filosofia de negócio e não um conhecimento meramente científico, racional, pragmático, capitalista ou determinista como vem sendo apresentado por “gurus” da Administração e da Economia, em especial aqueles engajados em ideologias políticas atuais.

O mesmo acontece com o Cooperativismo, o qual discuti em vários trabalhos e resultados de pesquisas apresentados nos Encuentros Latinoamericanos de Cooperativismo, realizados na América Latina com o incentivo da ACI (Aliança Cooperativa Internacional).

Escrever sobre empreendedorismo seguindo uma visão superficial, mecanicista, linear e pragmática não é difícil. Neste caso empreendedorismo assume os mesmos conceitos de empresarialismo e está subentendido na técnica pragmática de management.[3]

A complicação ocorre quando se procura falar de empreendedorismo a partir das competências e habilidades essenciais, intuitivas e humanas do indivíduo; isto se dá em especial quando envolve a relação pensamento-aprendizagem e vai somar-se em uma educação integral, através de uma metodologia educacional que ainda não é bem aceita pelas academias.

Nesta segunda premissa o empreendedorismo assume conceitos de uma filosofia. Esta premissa é a que me interessa neste trabalho e embasa a discussão do Sistema L.I.D.E.R. como uma proposta para o desenvolvimento humano. Vale salientar que os empresários de visão puramente racional e pragmática não estão interessados em desenvolver pessoas dentro de suas empresas e preferem, quando muito, apenas dar-lhes algum treinamento, desde que este coincida com as possibilidades de auferir maiores lucros em curto prazo. O ser humano nessas empresas ainda é considerado como um recurso no mesmo sentido considerado para os demais recursos.

Nesse sentido, um Sistema como o L.I.D.E.R. aqui apresentado, só terá aplicação para o Desenvolvimento de Sistemas Humanos se houver dentro das organizações, em especial as educacionais (escolas, institutos técnicos, faculdades, etc.), públicas e privadas, o comprometimento de todos os participantes (sócios, investidores, diretores, professores, funcionários, estudantes). Também será necessária a revisão de conceitos administrativos e pedagógicos por todos: coordenadores, instrutores, facilitadores e gestores dessas instituições e devem cobrir desde as áreas de conhecimentos básicos até aquelas que cuidam da formação empreendedorial.

Não é possível discutir desenvolvimento de sistemas humanos sem discutir em conjunto dentro da academia desde a formação básica até a superior. Eis porque o sistema L.I.D.E.R. deve estar presente não apenas nas empresas, mas nas organizações educacionais.

O Sistema L.I.D.E.R. é em si também uma metodologia que envolve quatro artes fundamentais e um laço de controle ou feedback. Como uma quinta arte, este feedback serve para estabelecer os padrões de ação e equilíbrio, avaliar o desempenho dessas ações para, em seguida, recomeçar tudo, sustentar e ampliar o que foi devidamente aprendido, corrigir os desvios e voltar a aprender, de forma holística.

Seria como re-aprender tudo com um começar de novo, diferente, não repetitivo e integrador (o que é próprio da Heutagogia).

A metodologia de trabalho deste Sistema deve começar com a elaboração de um programa de leitura que leva as pessoas a aprender a Arte de Ler, a qual pode ser considerada o foco primaz do sistema. Esta arte, a inicial e mais complexa, considero a mais difícil, pois pela minha experiência, até agora, o que menos nosso povo, nossos alunos, nossos trabalhadores e até nossos profissionais e gerentes sabem é LER.

Quanto ao programa para aplicar o Sistema, deve ser elaborado após se efetuar um diagnóstico das condições efetivas do desempenho e nível de aprendizagem de cada empresa, o que nos impede, neste livro, de apresentar um modelo que possa ser utilizado indistintamente. Um modelo pré-fabricado que nem precise de retoques para ser implantado nas empresas, como uma receita de bolo.

Não vejo possibilidade de um plano educacional, que vise o desenvolvimento sustentável de uma organização, uma comunidade, um estado, um país, quando os atores responsáveis para colocá-lo em atividade não sabem LER e, muito menos, INTERPRETAR o texto lido, e poucas pessoas conseguem realmente ser efetivas nesta arte. Inclusive vive-se sem um domínio efetivo da língua em muitas dessas regiões. No máximo o que aprendem nas escolas brasileiras é o que o filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860), expressava em seu pensamento: “Ler é pensar com o cérebro alheio em lugar de fazê-lo com o próprio” (SCHOPENHAUER, 2007). Ou seja, nas metodologias em aplicação no processo educacional não existe pensamento-aprendizagem, mas memorização-aprendizagem de textos e de respostas dadas em aula pelos professores. Há como que uma significativa preguiça para aprender a PENSAR.

O que se procura realizar com este Sistema é superar essa deficiência discutida por Schopenhauer. Ou seja, superar a leitura que procura imprimir no Pensar de um indivíduo apenas o Pensar de outro indivíduo, daquele que escreveu ou falou. Esta superação ocorrerá no momento em que o indivíduo se torna capaz de substituir a leitura passiva (que leva a pensar com o pensamento do outro) por uma leitura ativa (pensar com o seu próprio pensamento). Isto é possível através de um plano que promova a separação entre a leitura não-essencial e a leitura essencial.

O que faz com que as pessoas não gostem de ler é a forma (ou método) como a leitura tem sido imposta nas escolas, ou seja, as crianças são forçadas e obrigadas a aprenderem a ler sob pressão e castigo. Este método de imposição pela autoridade do professor é obsoleto e ineficaz, do que resulta o desinteresse do aluno pela arte de ler e ele carrega este hábito negativo por toda a vida. No Sistema L.I.D.E.R. a aprendizagem é feita com o consentimento do aprendiz e não por imposição do consultor ou mentor da organização. Todo ser humano já nasce sabendo ler, e aqui ler não é necessariamente ou exclusivamente conhecer letras, alfabeto ou gramática.

Ler neste sistema está amarrado ao Pensar, ao Sentir e ao Imaginar. Isto nos mostra vários tipos de leituras que não apenas a de textos impressos ou livros. Em resumo podemos dizer que o cego lê e todos os seres humanos leem antes de se alfabetizarem. Deste modo, listamos algumas formas de leitura que poucos consideram como tais: sensível, auditiva, táctil, visual, olfativa, e outras relacionadas com os sentidos e sobre os sentidos.

Um plano educacional deve ser desenvolvido por organizações de leitura e aprendizagem, em especial como Co-Educação (Educação com o outro e não sobre o outro), nos casos de instituições de ensino, tendo em vista tornar-se necessário foco e concentração de ideias, objetivos e metas sem dispersão de recursos. Além disto, o plano deve primar pela liberdade do aprendiz e não deve ser coercitivo ou forçado para que ela possa, por si mesmo, escolher a forma de aprender e sobre o que deve aprender.

Como ocorre hoje com a gestão nos atuais programas de educação pública e privada,  percebe-se como prática a aplicação de recursos em atividades não-essenciais. Por isso o Sistema L.I.D.E.R. deve, sobretudo, ser implantado com certa ênfase nessas organizações voltadas para a educação, o ensino e a formação de crianças e jovens, a fim de que seus resultados possam refletir depois nas famílias, nas empresas, nas comunidades, na sociedade como um todo. Vale salientar que o Estado não é uma Organização pura e simples. Ele é formado por organizações.

Além das organizações de ensino, as empresas privadas e públicas precisam deste Sistema para manter, melhorar ou ampliar suas competências negociais, pelo menos até renovar seus quadros com as novas gerações formadas nas instituições transformadas. Como consequência, este Sistema passaria à qualidade de ferramenta de manutenção do desenvolvimento humano das empresas e não mais uma obrigação maior dos empreendedores, uma vez que contribuir para a qualidade do conhecimento e da aprendizagem passaria a ser parte própria da cultura organizacional.

A metodologia educacional atual não contribui muito para a implantação deste Sistema porque ela não acompanha o desenvolvimento dos negócios no mundo empresarial. A educação está divorciada do desenvolvimento socioeconômico e empresarial e, em especial, do desenvolvimento cooperativo e empreendedorial e mais direcionada para princípios ideológicos que distorcem a realidade em proveito próprio.

Como o desenvolvimento de negócios está à frente do educacional e os sistemas humanos nas empresas estão praticamente estagnados em termos de capacitação e da especialização por tarefas – apesar de utilizarem programas de treinamento –, somente as empresas que adotaram projetos mais avançados para desenvolver seus colaboradores conseguem estar à frente da concorrência em vantagem competitiva. É possível que resida nesta premissa o lento e até medíocre desempenho das organizações produtivas do país. Por isso a introdução de um programa para desenvolvimento de sistemas humanos, tendo como foco metodológico o Sistema L.I.D.E.R., pode possibilitar, em especial para as micro, pequenas e médias empresas, um avanço significativo em termos de negócio e assim torna-las organizações de leitura e aprendizagem.

A aprendizagem da Arte de Ler tem por objetivo levar o ator (aluno, trabalhador, empreendedor, empresário, professor, político) a aperfeiçoar os conhecimentos sobre a língua portuguesa – atualmente um dos entraves na competitividade mercadológica da maioria das empresas – no caso do Brasil. O mesmo se verifica com a língua espanhola, no caso da América Latina. O domínio dos idiomas é fundamental para ampliar as Habilidades Essenciais e, como consequência disto, as competências dos Sistemas Humanos.

Daí a importância de se lutar por uma linguagem integral que não apenas enfatize o falar do senso comum vulgar, mas que possa elevar a capacidade de comunicação entre as pessoas e os grupos sem parecer sofisticação e nem erudição.

Não sabemos falar nossa língua portuguesa. Esta é uma realidade que somente as pessoas sábias admitem. Este é um dos pontos críticos e fracos que ameaçam nossa participação na vida profissional, sobretudo no ambiente negocial do país e do exterior.

Falar corretamente um idioma requer que a pessoa domine certa quantidade de palavras ou possua um vocabulário básico formado por algumas centenas de palavras e expressões (ortográfica e morfossintática correta) que vão além da vulgaridade e da minimização idiomática. Isto é importante, embora muitas expressões populares, criadas pela conversação popular, sejam interessantes para as relações dialógicas, mesmo não plenamente válidas para atividades que requerem tomadas de decisão dentro de organizações.

O fato de não termos um domínio do idioma também contribui para retardar o desenvolvimento industrial, o estudo, a pesquisa, a creatividade (do latim creare)[4] – no sentido de Pensar e relacionada à visão integral com o uso dos hemisférios cerebrais – e a criatividade (no sentido de Fazer). Isto se estende até a utilização do conhecimento puro, aplicado (creação) e patenteado (criação), uma vez que o nosso sistema educacional inibe a habilidade conceitual e a capacidade de criar novas palavras e conceitos e isto resulta em um ponto fraco que contribui para gerar o atraso socioeconômico do país. Podemos ainda dizer: no primeiro caso (crear), tem-se algo chamado de euri-criação (ou criação ampla, neste livro, chamada creação) para diferenciar do segundo. Este segundo pode ser chamado de esteno-criação (podemos chamar, neste caso, de criação estreita ou limitada ao fazer).

É importante salientar neste caso o baixo desenvolvimento da curiosidade, o qual acontece em razão das deficiências educacionais. Deficiências estas que podemos detectar no baixo índice de APOR (Atenção-Percepção-Observação-Reflexão), fácil de identificar tanto nas escolas quanto nas empresas. Sem desenvolver a curiosidade ocorre uma inibição para crear e isto vai repercutir no futuro das pessoas e da empresa quando se necessita criar produtos e inovar. Podemos ver tal descalabro no número baixo de registro de patentes e no desenvolvimento de novos produtos nas indústrias. No Brasil o verbo criar foi há muito substituído pelo verbo reformar o que exclui a inovação e os empreendedores inovadores.

Esta deficiência também contribui para a deterioração das comunidades e o surgimento de líderes dominadores, além da ampliação do ciclo de violência social, humana e ecológica.

Nos estudos que realizamos até agora identificamos como uma das sérias dificuldades para a formação de comunidades cooperativas empreendedoriais a deficiência das pessoas em lidar com a habilidade conceitual. Isto sem falar das dificuldades dos alunos para trabalharem em equipes cooperativas. Como resultado chega-se à explicação dos motivos ou razões pelos quais não conseguimos introduzir, no que resta de comunidades no Brasil, as bases de uma Administração de Comunidades Empreendedoriais Cooperativadas. As pessoas estão por demais condicionadas a aceitar a coordenação subordinada (que aplica o poder sobre)  e a rejeitar ou não valorizar a coordenação cooperativada (que utiliza o poder com), porque não sabem Pensar por si mesmas e esperam pelo Pensar do outro.

No caso de alunos a demanda maior é por conteúdos apresentados pelo professor com o mínimo de debate e de questionamento sobre cada assunto discutido. O aluno ainda depende de dominar oralmente, pela técnica de aprender ouvindo, os conhecimentos ou informações mínimos para conseguir aprovação nas provas e exames. Ouvir é também uma forma muito boa de ler, mas ouvir o que o outro (professor) impõe pela sua narrativa é ficar subordinado à leitura dele com o que se perde a liberdade para Ser Creativo.

A deficiência na Arte de Ler resulta, entre outros fatores, na falta de capacidade de construir textos, de escrever, interpretar, formular ideias, perguntar e se expressar de forma oral e escrita. E ainda mais, para se comunicar, negociar, vender, comprar, crear ideias e criar produtos; enfim, para elaborar normas e leis que possam ser proativas e beneficiem todas as pessoas e contribuam para o fortalecimento de suas comunidades  sejam orientadas para um processo ganha-ganha sem competição violenta.

A heteronomia predominante na sociedade brasileira procura promover o individualismo competitivo negativo e inibir o individualismo cooperativo positivo; isso contribui para as pessoas se preocuparem, primeiro com “o que é meu” sem dar a mínima atenção ao “o que é nosso”. Mesmo nas comunidades onde existem sinais de coletivismo este só é preservado em sentido de sistema fechado e sob o controle de algum patriarca, matriarca, ou preposto religioso; este com o uso de argumentos conciliatórios e dogmáticos procura propor contornos de bom relacionamento e evitar os conflitos possíveis entre as camadas microcoletivas que se digladiam, e busca prevalecer suas ideias ou sobrepujar outros grupos.

O senso comum vulgar (SCV) – fruto de certa forma do senso catequista das religiões –, sozinho não tem mais condições nem força para proporcionar às pessoas os recursos comunicacionais mínimos para sobreviverem no ambiente globalizado/glocalizado em que nos encontramos hoje e a partir de agora para os futuros. As pessoas são “educadas” desde a infância no lar (sob a dominação do patriarca), na escola (sob a dominação dos professores) e nas igrejas (sob a dominação catequista dos padres e pastores) para serem obedientes a alguém ou a algum mito e algum rito.

Este senso comum vulgar foi construído e ainda é sustentado pela instrução e pela oralidade, e exclui a leitura ou a Arte de Ler como fator preponderante que remete ao Pensar. Para os poderosos, interessa apenas pessoas que fazem e menos as que pensam.

Não dá para sobreviver, agir, atuar, crear, desenvolver, construir, inventar, re-inventar, re-crear, des-ordenar, des-construir, des-conhecer, criar e mudar as coisas com o conhecimento dominante atualmente e, assim, enfrentar o ambiente da Terceira Modernidade (que chamo de Quarta Onda). Para realizar tudo isso se requer sistemas de Co-Inteligência e muita Sinergia (Cooperação), e isto só pode ser obtido através de intensa coordenação não-subordinada ou cooperativa entre as pessoas; este recurso se proporciona, em sentido primário, pelo Domínio ou Arte de Ler.

A oralidade sozinha não oferece muitos recursos (no mundo atual) para alcançarmos com segurança e felizes esta quarta onda (em especial no caso do Brasil, America Latina, África e Ásia) devido à complexidade da competição. Essa é uma competição que, a todo o momento, está a superar a cooperação e procura meios e recursos para evitar a ampliação do conhecimento a ser obtido por/com uma aprendizagem proativa.

Estamos, hoje, no Brasil, a fazer uso de conhecimentos que foram criados há mais de duzentos anos (ou trezentos anos), sem fazer ou dar qualquer contribuição nova para o amanhã. Como salienta Rodhen (1984):

Há diversos séculos, que a educação degenerou em simples instrução. Todas as nações mantêm os seus Ministérios de Educação, mas todas tratam apenas da instrução do ego periférico, intelectual, a que eles dão o nome fictício de educação humana.

Estamos, hoje, no Brasil, a pensar com o cérebro de outros, em sua maioria de estrangeiros. Em outras palavras, estamos sempre sentados (como diria Monteiro Lobato, preguiçosamente)[5], a pensar com o cérebro de outros sem dedicar esforços para pensarmos com nosso próprio cérebro e, pior ainda, a usar de forma errada ideias já pensadas e criadas por outros no passado. Isto se chama erudição e não sapiência.

Estamos a copiar, sem nexo e sem reflexão, o que é e foi criado alhures, apenas por ser mais fácil, menos arriscado, e a julgar ser menos custoso por já estar pronto. Por isto discordo daqueles que dizem que o brasileiro é criativo. Pode até ser, mas o resultado de sua criatividade não vai além de artefatos de senso comum vulgar. Podemos ser até potencialmente criativos, mas somos pouco creativos e o fazemos apenas para por em prática ações criativas. Criamos mais por imitação menos por creação.

Ao olhar em sentido amplo, percebemos que já não valem mais para o mundo atual as premissas, as propostas, as proposições e as teses do Primeiro Iluminismo ou derivadas delas; teses que formaram os alicerces da Primeira e Segunda Modernidade. Essas teses só servem, agora, apenas como valores canônicos para estudos meramente históricos e, quando muito, acadêmicos, mas sem oferecer contribuições para o desenvolvimento de empresas, de comunidades, de pessoas, etc..

Embora o Brasil ainda lute para viver as dádivas do primeiro Iluminismo, o mundo já carece de um Segundo Iluminismo proativo e transformativo e não mecanicista, reformista, materialista e desumano; um Iluminismo capaz de servir de base no sentido de se construir uma Terceira Modernidade, na qual a espiritualidade venha completar as esferas do Homem Integral de forma efetiva.

O mesmo pode-se dizer sobre economia, desenvolvimento e crescimento econômico cuja matriz, formada no Primeiro Iluminismo, foi brutalmente inorgânico, molar, contaminadora da Natureza e se prolongou até agora marcado por um excesso de consumismo. Aproxima-se o tempo de um novo paradigma da Economia Orgânica.

Carecemos, no Brasil (inclusive na América Latina e na África), de uma Nova História e de uma Nova Ciência para o Século 21 que não esteja fragmentada, nem desprendida (separada) de uma Nova Filosofia. Um exemplo: a Coréia do Sul só conseguiu entrar neste novo ambiente e acompanhar os paradigmas gerados pela nova ciência através da educação, tendo como principais motores a Leitura e a Interpretação; além do raciocínio lógico e da matemática, que resultaram no Conhecimento necessário para a transformação, e a elevou de uma posição dependente para outra interdependente. Neste sentido seguiu o rastro do Japão. O próximo passo para a Coréia e os países de administração inclusiva é desenvolver a economia orgânica e molecular.

Alguns autores como G. Hofstede (1983) procuram identificar a defasagem do crescimento e desenvolvimento entre as nações através do papel exercido pela cultura na formação das comunidades. É uma discussão interessante e, de algum modo podemos ver isso, se compararmos as condições socioeconômicas da Coreia do Sul e do Brasil, tomando por base a renda per capita de ambos em 1970, como mostrado pelos resultados da pesquisa de Hofstede (1983).

Ninguém nasce sabendo pensar. Todavia, a hominização se concretiza a partir do Sentir e do Pensar e, graças a isto, estamos na Quarta Onda. O Pensar é como uma arte que nós aprendemos enquanto vivemos. Alguns aprendem mais rápido que outros, porém a maioria se contenta (muitas vezes por desconhecer) com o pensar dos outros e começam a decorar os pensamentos alheios e a usá-los cotidianamente como guia para suas vidas. Muitos até acreditam que tais pensamentos são seus (como no caso de dogmas teológicos). É o processo de alo-educação de que fala Rodhen (1984). Este processo reduz o indivíduo a um mero recurso subordinado e dominado pelos donos dos fatores de produção que o utiliza à exaustão e depois dispensa sem o mínimo de consideração e dignidade.

Para aprender a Pensar é muito importante a contribuição da Arte de Ler e, através dessa aprendizagem, a pessoa começa a dominar a Arte de Interpretar. Um exemplo disso vem da primitividade. As gravuras pictóricas nas cavernas representam o começo para o Homem aprender a pensar. Ao aprender a ler e a interpretar o ambiente natural o hominídeo começou a pensar; para isso contribuiu muito a sua capacidade de observar, perceber, ficar atento e começar a refletir sobre os fatos, evidências e ocorrências oferecidas pela Natureza Viva. É o começo do Sistema APOR. Assim começa tanto a organização social quanto a econômica. Seguiu-se nesse processo a capacidade de imitar e, por analogia, comparar tudo o que percebia a sua volta; e isso o ajudou a evoluir do estágio primitivo de sobrevivência para o estágio moderno, de prosperidade, além de contribuir para ativar um Sistema Imagístico que veio enriquecer o Crear, a Intuição. O Homem gerou assim um sistema de padrões para poder enfrentar a diversidade dos ambientes hostis em que vivia. E nosso cérebro passou a agir de acordo com os padrões vividos, criados e aprendidos. De Bono (2000) explica isto muito bem.

Assim, o primeiro passo metodológico do Sistema L.I.D.E.R., que estou oferecendo neste livro, é aprender a Arte de Ler (igual a não pensar com a cabeça de outros) a fim de gerar novos padrões proativos. Este é o primeiro desafio que temos como promotores do desenvolvimento humano e facilitadores, para o resgate da comunidade como base primeira de sobrevivência e, deste modo, fazê-la atuar como referência na formação da cidadania, e poder avançar até um estágio de prosperidade.

Por enquanto, ainda vivemos em uma fase de neo-primitividade e materialidade (fase molar) como padrão e referência; agora precisamos mudar para uma nova fase que pode ser a do homem espiritual.

O estágio de prosperidade que estamos enfatizando neste sistema não se refere a acumulação de riqueza mas a acumulação de saberes, conhecimentos atuais, de harmonia com a Natureza e com os demais seres, é ser creativo, proativo e cooperativo. Prosperidade é a base do Ser e não do Ter.

Os donos do poder econômico e político procuram retardar o quanto podem esse processo de mudança porque eles já perceberam que, quando o Homem Pensa, ocorre uma maior abertura para a Liberdade, o polo oposto ao Poder, e a agir ao confrontar a heteronomia dominadora.

Trata-se, neste caso, de uma prosperidade que contribuirá para uma evolução, na qual o ponto central não será mais a propriedade individual dos meios de produção, nem de latifúndios e nem da livre iniciativa econômica capitalista egoísta, orientada para a acumulação individual de riquezas e para o consumismo. Ao pensar individual e coletivamente (ou cooperativamente) o ser humano tende a mudar, transformar e reconstruir o seu comportamento. Os meios já não são mais justificados pelos fins.

Para alcançar este nível superior de vida busca-se a posse compartilhada, mutualista, cooperativa e libertária que não prejudicará a natureza nem promoverá a obsolescência programada dos produtos finais resultantes de seus processos produtivos, como objeto do consumismo para enriquecimento.

O que se busca agora não é mais o enriquecimento por acumulação de capital (como fator econômico), mas por acumulação de saber e conhecimento que passa a ser o principal fator de produção. Este novo caminhar está a exigir um novo Homem que seja individualista cooperativo e não mais individualista competitivo. Em outras palavras, este será o melhor caminho para uma economia orgânica, uma economia molecular, na qual o homem respeita a Natureza e não contribui para a sua destruição. Não se trata de promover um mero decrescimento econômico como propaga alguns intelectuais e ideólogos inorgânicos.

Essa nova etapa histórica do Homem vai iniciar-se com o Decrescimento da Economia Inorgânica e o Crescimento da Economia Orgânica. Enganam-se os empreendedores e empresários que acreditam que o atual modelo econômico é definitivo. Nesse modelo atual de agir os empresários e líderes atuam com o piloto automático ligado como salienta Adams (In: RENESCH, 1999, p. 197-208).

Não há cidadania sem comunidade e sem autonomia, e sem liberdade com responsabilidade. Enquanto isto não é alcançado as regiões permanecerão sob o poder de líderes dinásticos e patrimonialistas, líderes dominadores, e a mercê de grileiros e de acumuladores individuais de riqueza. E no caso do Brasil continuaremos amargando uma economia feudo-comercial dinástica como referência para crescimento. “Onde há líder, pois, não há liberdade: o líder é o Poder e a liderança a escravidão. O poder é incompatível com a liberdade” (LIMA, 1980).

Precisamos criar uma Comunidade de Leitura e Aprendizagem e não uma comunidade de copiação e decoração de textos e linguagens atrofiadas e descontextualizadas, em especial nesta era de enlaces em redes comunicativas como a Internet, que disponibiliza inúmeros textos e facilita a cópia abusiva sem as devidas leituras ativas dos mesmos.

Sem comunidade devidamente atuante e forte, dinâmica e produtiva não temos meios para nos definir como povo cidadão, nem mesmo como nação; e não passamos de povo-massa à disposição das elites dominadoras.

Perdemos nossa referência cultural e de cidadania quando o patrimonialismo feudo-comercial, sob o comando desses líderes dinásticos, desmontou-a e se apropriou dos limites externos da Casa Grande, após o fim da escravidão, e transformou essa apropriação em referência e base importante para o que os antropólogos chamam de cultura. Mas, qual cultura? Não é possível haver uma cultura sem utopias.

Até agora o que temos de modelo socioeconômico equivale ao modelo vivido na Senzala da Casa Grande, ou seja, mudamos de uma cultura escravista que estava concentrada no poder do senhor feudal, para outra neoescravista que continuou nas mãos dos mesmos senhores agora na posição de dono do capital feudo-comercial.

Uma referência cultural própria, construída no âmbito da liberdade comunitária, mutualista e cooperativista, favorece a construção de uma nação. O fim da escravidão apenas contribuiu para o surgimento de um novo tipo de escravo: o trabalhador assalariado.

O conceito de Nação equivale ao conceito de Cultura. E a referência cultural sempre nasce no passado, na História onde se encontram os conhecimentos, e com ela podemos dar ao futuro o sentido desejado. Isto vale para uma pessoa, uma comunidade, uma empresa, um estado, um país, enfim para qualquer forma de organização. Porém sem primar por uma erudição que impede de avançar para um presente creativo em busca de um futuro feliz.

Nas circunstâncias atuais assinaladas e percebidas existem apenas retalhos de cultura e de povo neste espaço chamado Brasil. Não existe aquela visão positiva do futuro, tão necessária para que um povo permaneça com força e crie bases para a sustentabilidade e a longevidade, em especial porque ainda não conseguimos construir uma História decente e não segmentada ou fracionada, mas com modelos próprios. Nosso modelo de educação instrui o indivíduo, treina-o para tarefas; condiciona-o a ter medo do futuro, a ficar cada vez mais distante do poder (repetindo com uma nova configuração, com nova roupagem o que havia no interior da Casa Grande) e a não aceitar a incerteza como base e desafio para a transformação.

Com as transformações geradas pelas tecnologias da informação e da comunicação o tamanho já não é mais fator de competitividade, pelo menos o tamanho molar. O mundo está encolhendo, está plano no sentido da comunicação em tempo real (FRIEDMAN, 2007). Os limites estão difusos entre as nações o que leva o grande a se tornar pequeno como empresa, como país, como organização, a fim de enfrentar as transformações e seus paradoxos. (NAISBITT, 1994; OHMAE, 1991; LEVY, 1998).

Somente os países de cultura consolidada, possuidores de um (possível) individualismo cooperativo acentuado e coletivismo positivo, e com visão positiva do futuro prosperaram; os demais países tentaram apenas sobreviver e alguns o fizeram até muito bem (como a URSS no início de implantação do leninismo, a Iugoslávia, no tempo de Tito, com seu projeto de autogestão).

Mas esses países ou aglomerados de estados não prosperaram além do crescimento molar inorgânico e pereceram como organização e nação; outras estão cambaleando em busca de uma muleta naqueles países que ainda estão firmes. Assim são as pessoas, assim são as organizações negociais e assim são os países. Sem foco, sem projeto, sem hipóteses e metas bem definidas, sem estratégias bem delineadas e apoiadas no Pensar e no Sentir fica difícil transformar os negócios, os estados, os países.

Para mim, e para o meu trabalho de facilitador e mentor, começa aqui toda problemática que me impede a aceitação da ideia retrógrada de desenvolvimento, como aquelas que avaliei na dissertação de mestrado (e que explicarei mais adiante neste livro), a qual é difícil de superar sem a produção efetiva de conhecimentos. Porém, não se trata apenas de conhecimento subordinado, mas de conhecimento cooperativo e útil (molecular). O primeiro – conhecimento molar subordinado – está sujeito a uma forma de coordenação subordinada na qual o colaborador não precisa ser desenvolvido, mas apenas treinado porque alguém: chefe, líder, supervisor, etc. vão prover os recursos para seu processo decisório. Já o segundo – conhecimento molecular cooperativo – não precisa de gestão para que possa ocorrer porque ele é desenvolvido pelo próprio colaborador dentro de um coletivo cooperante ou conjunto através de cooperação coordenada.

Como professor, minha maior dificuldade não está no método, na metodologia e nem na qualidade do material disponível para uso em aulas. Está, sobretudo, na deficiência da prontidão dos alunos, prontidão esta que não foi devidamente realizada ao longo dos estágios anteriores, da pré-escola até a conclusão do nível médio. O aluno atual possui menos capacidade de leitura que o de 50 anos passados, apesar de possuir mais informação. Infelizmente a metodologia utilizada, na família e na escola, é baseada na pressão que gera o medo e impede que a criança aprenda em liberdade e o reflexo disto sentimos na universidade.

O brasileiro desconhece cada vez mais o seu idioma e domina cada vez menos o seu léxico. O mesmo digo em relação a gerenciar pessoas, e tenho percebido que as deficiências não podem ser superadas apenas através de treinamento. Os gerentes perderam o senso de administrar e, pior, nem sabem liderar; no máximo apenas confundem liderar com mandar; confundem liderança com chefia ou gestão, e com isso aumenta ainda mais a distância entre o poder e os subordinados.

Percebe-se nesta situação que o treinamento como é programado e implantado tem, no máximo, um papel cosmético; isto é, representa uma operação plástica cujo resultado é um embelezamento da superfície, é periférico; contribui para as aparências e perde contato com as essências das pessoas; ou seja, não contribui para a qualidade interna dos colaboradores. Eles se modelam pela metodologia didático-pedagógica baseada numa “instrução unilateral do ego periférico, sem uma educação onilateral do homem integral” (RODHEN, 1984. Destaque do autor). Aqui se resume o uso que faço de crear para o sentido essencial do desenvolvimento de Sistemas Humanos e criar para a realização, o fazer, o produzir o que for pensado e para o qual é necessário o treinamento, a instrução unilateral.

A inexistência de uma propedêutica cooperativa, empreendedorial, holística para envolver os iniciantes na formação educacional, não somente em questões lineares, mas, sobretudo, em questões sistêmicas e laterais, isto sim, dificulta o trabalho de muitos professores interessados no desenvolvimento e prosperidade do país através das pessoas.

Já estamos vivendo em uma Sociedade do Conhecimento e da Informação e continuamos a investir tempo e saber para modelos de negócios que não estimulam a inovação; negócios que já não mais existem.

Não estamos ainda preparados para construir uma inteligência coletiva (LEVY, 1998). Isso é rapidamente verificado quando o aluno precisa primeiramente ler, interpretar, desenvolver um trabalho, estudar o seu conteúdo, para depois reconstruir um texto e os conteúdos associados ao texto trabalhado. Em seguida, dar o feedback (realimentação) do que fez e produziu, e apresentar tudo isto por meio de redação própria de um novo texto (um artigo, uma monografia, uma dissertação, ou um ensaio).

Uma prontidão efetiva realiza a promoção do indivíduo de uma condição de aluno para outra superior de estudante. Na condição de aluno o indivíduo apenas recebe informações e dados que são transmitidos por professores em atenção aos conteúdos das disciplinas.

O aluno recebe, consegue alguma forma de instrução e aplica o que absorveu durante as aulas nas provas. Depois esquece ou apenas pouca informação (útil) fica retida. Muitos concluem seus cursos elementar, médio, superior e nunca chegam a ser estudantes. Por quê? Diferente do aluno, o estudante representa o estágio superior que aquele alcança quando consegue transformar as informações (conteúdos de aula) em conhecimento tácito e implícito (com um Pensar próprio).

 O que tem acontecido, até agora, é que continuamos, na escola, a formar e instruir alunos, na empresa a treinar colaboradores, enfim em todas as organizações, a tratar as pessoas na condição de alunas e não de estudantes.

Continuamos, na escola e na universidade, treinando e instruindo pessoas para serem meros recursos na vida profissional. E esta é, neste momento, a importância de um projeto de Sistema L.I.D.E.R.: contribuir com uma transformação de dentro para fora e não apenas com a operação plástica nas competências das pessoais, a qual valoriza mais a aparência que a essência.

Embora não costumo gostar de indicadores estatísticos mecânicos, merece atenção os índices de desempenho educacional do PISA (Programa para a Avaliação Internacional de Alunos da OCDE, sigla em inglês), nos quais o Brasil sempre tem apresentado um resultado crítico que o coloca abaixo de países como Chile.

O reflexo de tais resultados  é visto na economia, na política, nas relações sociais, no crescimento da violência, na discriminação e preconceitos e, sobretudo, na educação continuada, quando os alunos vão perceber que deveriam ter melhorado suas capacidades cognitivas.

Isto apresenta um reflexo negativo no desenvolvimento socioeconômico e no desempenho competitivo das empresas e, por consequência, dos países. No nível oposto ao do Brasil a referência está na Finlândia em termos de educação e metodologia educacional.

Existem casos de alunos deixarem de concluir um curso ou abandonarem um curso superior e até de pós-graduação, no último semestre. Esses casos costumam acontecer quando precisam apresentar um trabalho final, artigo, monografia ou relatório como resultado de um estágio-pesquisa em uma empresa, após frequentar a faculdade durante quatro ou cinco anos. (Muitos alunos para não perderem totalmente o tempo gasto preferem pagar para outros elaborarem suas monografias). Ocorre assim simplesmente porque não sabem ler, interpretar, escrever, redigir seus pensamentos, suas ideias, transformar em palavras as imagens e as metáforas percebidas, apreendidas e discutidas durante o curso. Isso tem levado muitos (alunos e até pedagogos) a perderem um precioso tempo discutindo o paradoxo teoria x prática, o que não passa de mais um mecanismo de defesa (ou desculpa) para ocultar as várias incompetências e deficiências e justificar o uso de metodologias obsoletas aplicadas no processo educacional. Sem teoria a prática educacional é um mero fazer sem consistência, sem direção, é apenas repetição de padrões sem uma condição crítica até mesmo para a improvisação creadora.

Ou seja, muitos alunos deixam de completar todo o caminho deste sistema porque não se encontram preparados para apresentar a Retroalimentação daquilo que eles aprenderam (se realmente aprenderam dentro de uma metodologia de decoração) e fez durante oito ou dez semestres (por suposto). Tal situação mostra que o indivíduo-aluno não chegou a alcançar o nível de indivíduo-estudante.

Esta referência L.I.D.E.R. o aluno perdeu desde o pré-primário e sem ela passa a viver como adulto incompleto para exercer as suas atividades e ações no mundo profissional competitivo.

Este percurso discursivo me leva a associar estas ideias aos achados que obtive na pesquisa de mestrado, com a qual iniciei esta introdução. A pesquisa para o Mestrado mostrou-me que a deficiência do próprio distrito industrial dos Imborés em Vitória da Conquista, Bahia, se devia ao fato, entre tantos outros, de o perfil da elite industrializante existente nessa região, na época do estudo, ser do tipo reativo-dinástico-patrimonialista. Este perfil começa a ser considerado no elemento E (Empreendedores) do Ciclo GCEQ, reflete no elemento G (Governo) quando se trata da posse do poder local, e mostra como o empreendedor local/regional ainda não valoriza as possibilidades oriundas de outro elemento deste Ciclo, como o C representado pelo CC&T (Conhecimento, Ciência, Tecnologia).

Os outros dois  elementos do Ciclo: o G (Governo) e o Q (Mercado), mesmo que apresentassem, à época, uma atuação de relevo, não seriam capazes sozinhos de promover o desenvolvimento ou recuperação do distrito que foi alvo de estudo, sem que ocorresse alguma intervenção externa (a qual não era bem vista ou recebida pelos líderes políticos da região). Ou seja, mesmo que existam vontade política (G) e mercado consumidor consciente, de qualidade (Q) e disposto a comprar o que se produz, e preparado para expressar o seu desejo de comprar, ainda assim não haverá desenvolvimento local. A ausência observada desse desenvolvimento é o resultado de uma elite incapaz de empreender e de investir seu patrimônio (E).

Outro vetor que identifiquei durante a pesquisa e que tem um peso interessante quando se trata do processo de industrialização, foi a falta de um elemento motriz; a ausência na região de uma indústria ou empresa motriz para usar a proposição de Perroux (1967).

Percebe-se nesse processo a existência de uma elite que teme a incerteza e não possui conhecimento aplicado (C) suficiente para ser aceito e transformado em produtos e serviços e não tem competência para assumir riscos.

Outro fato de relevo com tendência frequente de ocorrer no ambiente feudo-comercial é a resistência à entrada de empreendedores estrangeiros (aqui considerados de outros estados, outras cidades, mesmo vivendo na região e até vindo de outros países).

Os estrangeiros, na realidade, são os melhores alavancadores do desenvolvimento local sustentado porque tendem a assumir os riscos da incerteza com cautela, prudência e segurança, mas sem fugir dessa incerteza, em lugar dos possíveis empreendedores locais. Em Vitória da Conquista o começo de seu desenvolvimento foi atribuído a estrangeiros migrantes de outras cidades do estado, como o caso dos miguelenses, pessoas e famílias que vieram de São Miguel para trabalhar na construção da rodovia Rio-Bahia e resolveram se estabelecer na cidade;  e até migrantes do nordeste que seguiam para São Paulo e resolviam se fixar ali.

 Não adianta termos, simplesmente, um Governo bem intencionado em relação a programas de desenvolvimento social, industrial e econômico; nem um mercado consumidor de Qualidade, para se recuperar um distrito industrial ou para se implantar um projeto de Cluster ou APL (Arranjo Produtivo Local). Em outras palavras, não é possível trabalhar com o ciclo GCEQ quebrado, sem Conhecimento (C&T) e sem Empreendedores e Investidores conscientes e interessados em assumir riscos. Este quadro deplorável de baixa industrialização se verifica em todo o país.

Com base na pesquisa de G. Hofstede (1983), falta entre as pessoas, nas regiões paradoxais, aquelas que não fujam das incertezas, bem como seria necessária pequena distância do poder (variáveis que o pesquisador Hofstede detectou e utilizou em sua pesquisa sobre cultura e organização) entre as pessoas e os líderes locais.

Desta pesquisa duas outras variáveis requerem muita atenção: Individualismo x Coletivismo e Masculinidade X Feminidade. A Distância do Poder entre as pessoas requer atenção, sobretudo no sistema político em vigor, porque são elas que escolhem aqueles que vão elaborar e gerenciar as leis  e exercer a gestão do estado.

Precisamos, portanto, ter bem definido e atuar com vigor em todos os componentes do ciclo GCEQ para se alcançar resultados na implantação de um Sistema L.I.D.E.R. nas organizações (públicas e privadas) de forma bem articulada. Sobretudo porque este sistema representa uma base essencial, vale dizer, um alicerce, sem o qual todos os esforços poderão não ser aproveitados. Isto tem muito a ver com a gestão das cidades e do conhecimento, além da administração de negócios.

Além dos cursos regulares de administração, os quais devem mudar o currículo atual para introduzir um enfoque empreendedorial e cooperativo, torna-se necessário a criação de cursos de Administração de Cidades, senão uma disciplina que aborde este tema, como extensão curricular. Com isto, podemos desenvolver gerentes de cidade e de comunidades e, assim, dar uma ênfase positiva e proativa às políticas públicas locais. Em lugar de subprefeituras, os governos municipais deveriam criar gerências regionais ocupadas por pessoas com experiências em gestão e administração de empresas públicas e privadas.

Precisamos, com urgência, eliminar ou reduzir das organizações públicas e privadas o senso comum vulgar. Senso comum traduzido na mediocridade política e burocrática. Precisamos, também, tornar os órgãos e as instituições mais transparentes e mais inclusivas, menos dispendiosas e menos medíocres.

Parece um paradoxo negativo: as instituições e os poderes públicos não são tão públicos, transparentes e inclusivos como deveriam ser. Na realidade são os mais ferrenhos propositores da exclusão, quando se mostram, em alguns governos, opositores da exclusão, ainda que cantem e decantem a necessidade de se promover a inclusão humana em todas as suas dimensões. Aqui o que se diz público é fechado, de difícil acesso e segue um ritual (burocrático e hierárquico e heteronômico) de sociedade secreta na qual só os iniciados e os escolhidos têm acesso. Aqui se confirma a importância que os poderosos dão à heteronomia. Ninguém é mais excluído dos serviços e das instituições públicas do que o chamado “povo” a quem cabe, por ironia, escolher os mandatários e os legisladores que vão sustentar a sua exclusão (ironia do destino ou da dita democracia!). Eis uma versão mais inteligível deste paradoxo. E ainda pagam altos impostos para manter essa máquina burocrática em funcionamento.

Por outro lado, não estou aqui descartando a ideia derivada do sonho de um negócio ser valorizado se não tiver como suporte a capacitação proposta pelo Sistema L.I.D.E.R., nem tampouco que dominar apenas a Arte de Ler seria suficiente para alavancar os negócios de uma empresa.

Saber e aprender a ler e a interpretar não dependem de ter um diploma. Os títulos nem sempre proporcionam capacidade para a leitura e a interpretação do ambiente e do mundo.

Deve-se ficar bem claro que ter um sonho de negócio, ser visionário, empreendedor, não exige de a pessoa ter curso superior, ou ser bem preparada dentro de uma proposta de Sistema como esta aqui apresentada. Todavia, este Sistema pode contribuir para despertar as ideias, melhorar e promover continuidade da melhoria da qualidade e do desempenho no sentido de consolidar a identificação de oportunidades de negócio. Além de contribuir para desenvolver a capacidade criativa dos colaboradores.

A ideia de negócio, o sonho, a visão empreendedorial antecedem a esse processo de aprendizagem. Na realidade, não dependem diretamente desse processo, pois ocorrerão mesmo se a pessoa não tiver concluído um curso elementar; isto faz parte da consciência e da vivência humanas e não é ensinado em nenhuma escola e nem está contido em nenhum manual. Trata-se da conscientização promovida pela aprendizagem imitativa (e experiência, a analogia) própria do ser humano.

O empreendedor sem base científica pode ter sucesso tanto quanto quem desenvolve o seu sonho dentro de uma universidade e/ou participa de um Spin-Off ou de Empresas Juniores nas faculdades.

As chances no tempo podem ser diferentes para ambos. O motivo se deve ao fato de o segundo tipo de empreendedor estar mais ativo e próximo das oportunidades de negócios bem como das ferramentas para concretizar mais rapidamente o seu empreendimento, sobretudo nesta era da Infoeconomia. Já o primeiro pelo fato de estar distante dos recursos pode demorar mais para perceber as oportunidades para atenderem as suas ideias, os seus sonhos. As formas de empreender também vão diferir porque o perfil empreendedorial de ambos também é distinto. No primeiro caso tem-se verificado com maior frequência o empreendedor por imitação ou necessidade e no segundo o empreendedor por creação ou oportunidade. Já expliquei em parágrafo anterior a diferença entre criação e creação.

Porém, isto não tira o mérito do sucesso de um empreendedor por imitação, senão dentro da infossociedade (CASTELLS, 1997), pelo menos dentro de seu estreito mundo low-tech, em sua comunidade imediata remota, a qual nas regiões paradoxais ainda é muito forte em baixa tecnologia, mesmo na periferia da Infoeconomia.

Em muitos casos os empreendedores têm tido sucesso mesmo sem ter o trabalho de crear ou inovar algum produto ou serviço ou de identificar, de forma creativa, uma oportunidade de negócio. O que pode diferenciar uma empresa de imitação de outra de creação é a vida útil. A primeira pode apresentar uma tendência de morte em um tempo menor (do ciclo de vida) em relação à segunda.

Também vale salientar que um empreendimento nascido por imitação pode, no decorrer dos anos, se não fechar em pouco tempo, transformar-se em um empreendimento creativo e inovador. Isto pode acontecer desde que seu dono comece a se conscientizar do valor da filosofia empreendedorial e, mais ainda, seja capaz de atrair colaboradores com esse tipo de conscientização, e formar uma equipe de Intrapreendedores inovadores. (SILVA, 2014)

Implantar uma empresa por imitação sem competência conceitual, como se pode inferir das Artes de Ler e de Interpretar, é o mesmo que encher a cabeça com textos e ideias decorados, escritos por outros, e não ter capacidade para interpretá-los, ou mesmo de usá-los adequadamente. Assim sendo, a importância de se desenvolver projetos de L.I.D.E.R., seja nas instâncias públicas, seja nas privadas, de educação e de negócio, e dentro de programas de desenvolvimento local, é sempre crescente.

Este livro procura alertar aos líderes de negócio, líderes de política, líderes de educação e outros, sobre a necessidade de reverem seus projetos, seus conceitos, suas hipóteses e suas metodologias. O livro focaliza o desenvolvimento humano como base para a mudança e a prosperidade de uma organização, de uma comunidade, de um estado.

Esse posicionamento é importante. Assim, academia, gestão pública, instituições e organizações das comunidades produtivas, empreendedores e investidores, precisam caminhar na direção de obter esta capacidade, de realizar a grande tarefa de construir, reconstruir e rejuvenescer os distritos industriais. Ou mesmo criá-los para se iniciar a tão necessária industrialização que irá promover com mais facilidade uma redução da pobreza em nossas regiões. Como conseguir realizar esta superação e quais os caminhos possíveis já existentes para se alcançar esse desenvolvimento?

Só um processo legítimo de industrialização – legítimo no sentido de envolver o Homem somado à Natureza e não o Homem destruindo-a –, que não esteja investido de caráter ideológico fechado, dogmático e centralizador, poderá promover o desenvolvimento local sustentado. Por sua vez, o serviço e a agricultura de commodities só serão fortes se tivermos indústrias bem assentadas e consolidadas nas regiões paradoxais, porque o comércio, o serviço e as commodities não são base para redução da pobreza.

É preciso salientar que o foco (futuro) do desenvolvimento econômico e social está orientado para a Economia Orgânica em substituição à Inorgânica, ou seja, está direcionado para o decrescimento dos modelos inorgânicos de desenvolvimento e o nascimento e respectivo crescimento de modelos orgânicos. Vale salientar, ainda, que não existe desenvolvimento sustentável sem uma filosofia cooperativista e mutualista porque os modelos inorgânicos não são sustentáveis.

Portanto, já não existe mais espaço para a industrialização do tipo consumidor de energias fósseis e não-renováveis (industrialização de chaminés), o que vai implicar em mudança de posicionamento da economia atual, inorgânica e molar, para uma economia proativa, molecular e orgânica, sem chaminés, sem consumo desordenado desses recursos. Em outras palavras, os países devem com urgência caminhar da economia molar para a molecular, a Ecoeconomia, a Bioeconomia e a Nanoeconomia.

Neste sentido o Brasil, mais do que qualquer outro país, tem a obrigação de ser um modelo na implantação de indústrias sem chaminé, de redução no consumo da energia não-renovável, da promoção de uma economia molecular e orgânica em lugar da economia molar e inorgânica que foi (e ainda é) a marca do crescimento econômico e financeiro dos países ditos desenvolvidos e capitalistas.

E mais, os programas de redução da pobreza só terão sucesso se tivermos nessas regiões paradoxais projetos semelhantes ao Sistema L.I.D.E.R. e programas de desenvolvimento que estimulem a industrialização orgânica, de preferência na forma cooperativista.

Não há como reduzir pobreza apenas pela via do comércio e do serviço, nem da agropecuária comoditizada. Esses setores são concentradores de riqueza, muitas vezes de forma bastante perniciosa e desumana.

A pobreza também não será reduzida com programas como o fornecimento de bolsas financeiras paliativas do governo, quando a sociedade ainda não é economicamente desenvolvida e educada para receber estes benefícios. Também é impossível promover desenvolvimento com distribuição de terras para pessoas sem aptidões agrícolas. Estes, sobretudo, são setores que não exigem um acúmulo de conhecimento ou alta tecnologia para as atividades a serem realizadas. Daí serem setores de baixa remuneração do trabalho, às vezes intensivos em mão de obra, mas com baixa concentração de conhecimentos (de know-how, de tecnologia, de informação, mesmo que se tente, através de organizações como a EMBRAPA, realizar pesquisas e aplicar conhecimentos na agropecuária). Mas, nada disso será suficiente se o ambiente político suprimir a liberdade de pensar e de fazer das pessoas.

Quanto à literatura disponível para ampliar as ideias, embasar os projetos convido o leitor a visitar o site http://shengadm.blogspot.com. Existem também outros Blogs, nos quais apresento artigos e muitas indicações bibliográficas, além das referências que embasam este livro e podem ser obtidas através da Internet. Aqui lanço um novo desafio denominado Sistema L.I.D.E.R., formado por cinco artes ou domínios que devem ser aprendidos e praticados dentro das organizações e na vida pessoal.

Este livro está dividido em 18 capítulos (Partes), um Prólogo e um Epílogo, incluindo esta introdução, com o último capítulo servindo como uma conclusão provisória.

Cada capítulo procura discutir os domínios da composição do Sistema e sua base metodológica, bem como elementos laterais que os complementam. Cada capítulo representa um caminho a ser seguido no sentido de se conseguir bons resultados com a aplicação deste Sistema. Já no Epílogo procuro discutir o Ciclo APOR e a Administração Sem Gestão.

Acrescentei ao final um Glossário com termos, expressões e acrônimos selecionados do texto para facilitar e tornar mais explícito para o leitor o seu conteúdo e alguns neologismos que criei.

Ao discutir as cinco artes ou domínios, procurei fazê-lo de modo que o leitor possa sentir, além da significação de cada uma delas, a sua importância para o desenvolvimento e os resultados de uma organização, seja com ou sem fins lucrativos. A sua leitura representa uma viagem por labirintos do saber incluindo uma forte orientação para o empreendedorismo e o cooperativismo.

O propósito maior está no sentido de focalizar uma sociedade organizada por coletivos em comunidades cooperativas. Pode-se dizer que a motivação de realizar as pesquisas que resultaram neste livro está na importância da Filosofia Cooperativista. Usamos esta em contraposição às filosofias vigentes no ambiente acadêmico, econômico e político centrado nos sistemas capitalista e socialista que proclamam o desenvolvimento econômico inorgânico.

Este livro procura atrelar elementos teóricos a uma visão prática e experiencial, embora um projeto como este não deva ser manipulado com números ou com valores quantitativos cartesianos porque seu escopo está centrado na subjetividade, na cognição, na intuição, na improvisação positiva e na qualidade das ações e espiritualidade dos indivíduos.

O Sistema L.I.D.E.R. está orientado para os Seres Humanos dentro das organizações, e essas ações não são efetivamente mensuráveis pelos métodos estatísticos e matemáticos vigentes. Trata-se de um sistema não cartesiano, não-mecanicista, não-ideológico, nem materialista; trabalha com e para o desenvolvimento humano através de um caminho do Pensar ao Fazer. Podemos dizer que a sua metodologia segue o caminho da intuição heurística e está interessado no pensamento creador e não o caminho cartesiano, analítico e fragmentador de ideias e meios. Todas estas artes ou domínios apresentam formas específicas de dificuldades para a aprendizagem, porém considero a Arte de Ler a que requer atenção especial em virtude da importância da leitura ativa (e não da leitura passiva) para tornar as pessoas mais competitivas e cooperativas. O que é a Interpretação de uma leitura senão o pensar com o seu próprio pensamento e não com o pensamento do autor?

Por que precisamos, como Administradores, Líderes e Coordenadores Cooperativos, ler e interpretar? Precisamos, sobretudo, para poder utilizar com precisão e entusiasmo a conversação estratégica no ambiente organizacional, a fim alcançar a efetividade necessária para a visão e a ideia de negócio que se pretende criar (HEIJDEN, 2004).

Ler apenas por ler (passivamente) sem interpretar o que foi efetivamente lido é tão medíocre como pensar com os pensamentos de outros como se fossem seus, sem a menor reflexão. Por isso o Ler que discuto em L.I.D.E.R. não se refere à quantidade passiva, mas à qualidade ativa da leitura. Trata-se, enfim, da leitura crítica e creativa. Neste livro apresento ideias, princípios e experiências que podem contribuir para profissionais, professores, coachs, empreendedores e empresários que têm o propósito de promover mudanças e transformações, e não meras reforms, em seus próprios métodos de trabalho e desejam melhorar suas empresas e suas comunidades.
Este é um livro de todos para todos independente de idade, sexo, fisiologia, nível de conhecimento, posições políticas, religiosas, ideológicas, desde que todos estejam certos de que são céticos positivos e não dogmáticos para poderem duvidar no sentido de se tornarem creativos. Trata-se, portanto, de um livro para aqueles que têm visão e sentido de águia, que enxergam longe e sabem escutar os reclamos da Natureza e vivê-los plenamente de forma sustentável, mutualista e cooperativa. m sentido metodológico, o Sistema L.I.D.E.R., objeto deste livro, resultou de estudos e pesquisas que começaram no mestrado e seguiram a ser feitas com a utilização de método indutivo, empírico e através de um sentido qualitativo para a exposição dos resultados.
O leitor encontrará neste livro várias expressões novas, além de siglas e acrônimos que não são comuns no vernáculo atual. Esta forma ousada de escrever faz parte da imaginação. Ela mostra que os lugares comuns na linguagem podem dar lugar a léxicos novos e que trazem um pouco de poesia, bem como metáforas, para uma nova forma de ler, de escrever e até de falar sem perder o sentido semântico que enriquece o texto.



[1] Ver, entre outros: ALMEIDA, Rômulo. Rômulo: Voltado para o Futuro. Fortaleza: BNB, 1986.
[2] Spin-Off representa o desenvolvimento de negócios a partir de ações dentro de um centro acadêmico ou universidade. As universidades empreendedoras são, por força das atividades teóricas-práticas, uma reunião de Spin-Offs, sobretudo nos cursos das áreas de exatas como física, química, engenharias, sistemas de informação, etc.
[3] Ver livro digital Além de Ser Empresário Seja Empreendedor. ViaLitterarum, 2014.
[4] Ao longo deste livro usarei a verbo crear e suas derivações para me referir à capacidade humana de desenvolver ideias e inovações e de usar o hemisfério direito do cérebro. Usarei o verbo criar quando me referir aos produtos obtidos com a capacidade de crear, ou seja, pelo uso do hemisfério esquerdo do cérebro. O primeiro verbo procura mostrar a evolução do conhecimento do nível molar (mecânico) para o molecular (heurístico) o segundo a aplicação desse conhecimento e seu uso em benefício do Homem e do Planeta. É válida também a leitura de Rodhen (1984). Segundo Rodhen “Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra”. Ver também Fisher (1989).
[5]O velho Torquato dá relevo ao que conta a força de imagens engraçadas e apólogos. Ontem explicava o mal de nossa raça: preguiça de pensar.”... Monteiro LOBATO: Vidinha Ociosa, Apólogo, 1906, p.37. In, Cidades Mortas. São Paulo: Globo, 2007.