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sábado, 28 de dezembro de 2013

Autogestão


Se algum conceito prático e operativo pudesse sintetizar a essência da filosofia social do anarquismo, este seria o da autogestão. Assim como o próprio Proudhon, que utilizou pela primeira vez a palavra anarquismo, dando-lhe um sentido não pejorativo e usando-a para designar seu próprio sistema socioeconômico e político, logo preferiu substituí-la por outra (mutualismo, democracia industrial, etc.) que tivera um significado positivo (e não meramente negativo como “an-arquismo”), hoje poderíamos considerar que o termo “auto-gestão” é um sinônimo positivo do “anarquismo”.

Entretanto, tal equivalência semântica não se pode estabelecer antes de haver deixado estabelecida uma série de premissas e de haver feito uma série de precisões. A palavra “autogestão” e o conceito que representa são de origem claramente anarquista. Mais ainda, durante quase um século esse conceito (que não é a palavra) foi o santo e a senha dos anarquistas dentro do vasto âmbito do movimento socialista e operário[1].

Nenhuma ideia separou mais enfaticamente a concepção anarquista e a concepção marxista do socialismo no seio da Primeira Internacional do que a da autogestão operária.

Porém nas últimas décadas a ideia e, sobretudo, a palavra, foram se difundindo fora do campo anarquista e expandindo em terrenos ideológicos muito alheios ao socialismo libertário e, por isso mesmo, perderam peso e densidade, se diluíram e trivializaram. Hoje falam de “autogestão” socialdemocratas e eurocomunistas, democratas cristãos e monárquicos.

Às vezes se confunde a “autogestão” com a chamada “co-gestão”, em que os anarquistas podem não menos do que ver um truque cruel do neocapitalismo. Às vezes, se a vincula com a economia estatal e de a fixa no marco jurídico-administrativo de um Estado, com democracia “popular” (Yugoslávia) ou “representativa” (Israel, Suécia), etc.. Uma sombra de “autogestão” pode encontrar-se inclusive nas “comunas camponesas” do mastodôntico império marxista-confuciano da China. E não faltam tampouco rastros da mesma em regimes militares (como o que se implantou no Peru em 1967) ou em ditaduras islâmico-populistas (como a da Líbia).

Porém a autogestão da qual falam os anarquistas é a autogestão integral, que supõe não só a tomada de posse da terra e dos instrumentos de trabalho por parte da comunidade laboral e a direção econômica e administrativa da empresa em mãos da assembleia dos trabalhadores, senão também a coordenação e, mais, todavia, a federação das empresas (industriais, agrárias, de serviço, etc.) entre si, primeiro em nível local, depois em nível regional e nacional e, finalmente, como meta última em nível mundial.

Se a autogestão se propõe em forma parcial, se nela intervém (ainda que seja desde longe e como mero supervisos) o Estado, se não tende desde o primeiro momento a romper os moldes da produção capitalista, deixa em seguida de ser autogestão e se converte, no melhor dos casos, em cooperativismo pequeno-burguês.

Por outra parte, não se pode esquecer que uma economia autogerida é socialista – mais ainda, parece aos anarquistas a única forma possível de socialismo – não só porque nelas a propriedade dos meios de produção deixou de estar em mãos privadas, senão também, e consequentemente, porque o fim da produção deixou de ser o lucro[2].

De fato, o maior perigo de toda tentativa autogerida da qual alguma vez se deu em um contexto revolucionário (como na Espanha de 1936-1939), é marcada sobre a forte inclinação, que séculos de produção capitalista deixaram na mente dos trabalhadores, para a ganância e a acumulação capitalista.

Uma vez salvo todas as armadilhas anteriores (entre as quais emergem uma tão dura e áspera como o Estado), a autogestão deverá salvar ainda a mais perigosa e mortal de todas: a tendência pra reconstruir uma nova forma de capitalismo. 

Extraído do E-Book: Ángel J. Cappelletti.La Ideologia Anarquista, Cap. 8. Traduzido por Adm. Jovino Moreira da Silva, M. Sc.

Comentário do tradutor
Este texto de Cappelletti, cujo capitulo 8 selecionei para publicar aqui no Blog, apresenta de modo objetivo e direto um retrato muito bom do que seja o Anarquismo como base ideológica para superar tanto o Capitalismo em suas várias facetas, quanto o Socialismo centralizador que vem travestido pelos diversos tipos de ditaduras populistas ou não trazendo ainda de face um enganador refrão democrático. Selecionei outros dois capítulos que logo serão publicados neste Blog.




[1].   Cf. R. GUÉRIN, op. cit. p. 36 ss. Sobre diversas interpretaciones de la autogestión véase R. MASSARI,  Las teorías de la autogestión, Madrid, 1975.
[2].   El más importante intento de autogestión integral es tal vez el que se llevó a cabo en la España de 1936-1939 (Cf. Frank MINTZ, La autogestión e n la España revolucionaria, Madrid, 1977).

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