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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

DA ARTE DE MENTIR COMO UM RECURSO PARA A DOMINAÇÃO

Estamos encerrando mais um ano deste segundo decênio do Século 21, um ano que foi cravado na memória dos brasileiros com o que se poderia chamar de "Ano da Mentira" em virtude dos discursos e promessas políticas que os candidatos apresentaram em suas campanhas. Mentiras que também se manifestaram nas declarações de indivíduos que estiveram e ainda estão por detrás dos casos de corrupção nas empresas estatais e nos órgãos públicos. Diante dos eventos que apreciei este ano de 2014, pensei em fazer a leitura ou re-leitura de alguns livros que estão em minha estante e ao pesquisar um texto para este último mês do ano que, pelo menos, atendesse a minha angústia diante de tanto descalabro político e econômico, achei que reler Hannah Arendt, neste momento, me tranquilizaria quanto ao entendimento de questões políticas. Escolhi para reler o livro CRISES DA REPÚBLICA no qual a autora faz uma crítica bem fundamentada sobre Os Documentos do Pentágono. Aproveito agora para copiar alguns parágrafos deste livro de Arendt aos quais estou dando este título: DA ARTE DE MENTIR COMO UM RECURSO PARA A DOMINAÇÃO. Vamos então ao texto de Arendt (1973, p15-17):
(...)
"A veracidade nunca esteve entre as virtudes políticas, e mentiras foram encaradas como instrumentos justificáveis nestes assuntos. Quem quer que reflita sobre estas questões ficará surpreso sobre a pouca atenção que tem sido dada ao seu significado na nossa tradição de pensamento politico e filosófico, por um lado, pela natureza da ação, e por outro, pela natureza de nossa capacidade de negar em pensamento e palavra qualquer que seja o caso. Esta capacidade atuante e agressiva é bem diferente de nossa passiva suscetibilidade em sermos vítimas de erros, ilusões, distorções de memória, e tudo que possa ser culpado de nossos mecanismos sensuais e mentais.
Uma das características da ação humana é a de sempre iniciar algo novo, o que não significa que possa sempre partir ab ovo, criar ex nihilo. Para dar lugar à ação, algo que já estava assentado deve ser removido ou destruído, e deste modo as coisas são mudadas. Tal mudança seria impossível se não pudéssemos nos remover mentalmente de onde estamos fisicamente colocados e imaginar que as coisas poderiam ser diferentes do que realmente são. Em outras palavras, a negação deliberada da verdade dos fatos - isto é, a capacidade de mentir - e a faculdade de mudar os fatos - a capacidade de agir - estão interligadas; devem suas existências à mesma fonte:imaginação.Não é de nenhum modo natural podermos dizer 'o sol está brilhando', quando na verdade está chovendo (a consequência de certas lesões cerebrais é a perda desta capacidade); a rigor isto indica que, apesar de estarmos bem equipados para o mundo, tanto sensual como mentalmente, não estamos adaptados ou encaixados a ele como uma de suas partes inalienáveis. Somos livres para reformar o mundo e começar algo novo sobre ele. Sem a liberdade mental de negar ou afirmar a existência, de deixar de dizer 'sim' ou 'não' - não apenas a afirmações ou proposições para expressar concordância ou discordância, mas para as coisas como se apresentam, além da concordância e discordância, aos nossos órgãos de percepção e conhecimento - nenhuma ação seria possível, e ação é exatamente a substância de que é feita a política.
Entretanto, quando falamos de mentiras e especialmente de mentiras entre homens atuantes, é bom lembrar que ela não se insinuou na política por algum acidente da pecaminosidade humana. A afronta moral, por esta única razão, não consegue faze-la desaparecer. A falsidade deliberada trata com fatos contingentes; ou seja, com coisas que não trazem em si nenhuma verdade inerente, nenhuma necessidade de ser como são. Os historiadores sabem como é vulnerável a textura de fatos na qual passamos nossa vida cotidiana; está sempre em perigo de ser perfurada por mentiras comuns ou ser estraçalhada pela mentira organizada por grupos, classes ou nações, ser negada e distorcida, muitas vezes encoberta cuidadosamente por camadas de falsidade ou ser simplesmente deixada cair no esquecimento. Os fatos necessitam de testemunho para serem lembrados e de testemunhas de confiança para se estabelecerem, para que possam encontrar um abrigo seguro no domínio dos assuntos humanos.
(...)
Em circunstâncias normais o mentiroso é derrotado pela realdade, para a qual não há substituto; por maior que seja a rede de falsidade que um experimentado mentiroso tenha a oferecer, ela nunca será suficientemente grande para cobrir toda a imensidão dos fatos, mesmo com a ajuda de um computador. O mentiroso que consegue enganar com quantas falsidades comuns quiser, verá que é impossível enganar com mentira de princípios. Esta é uma das lições que podiam ter sido aprendidas das experiências totalitárias e da assustadora confiança de seus dirigentes no poder da mentira - na capacidade de, por exemplo, reescreverem a história uma e outra vez para adaptar o passado à 'linha política' do momento presente, ou de eliminarem dados que não se ajustam às suas ideologias. Desta forma, numa economia socialista, eles negariam a existência de desemprego, tornando-se o desempregado simplesmente uma não-pessoa.
Os resultados de tais experiências, quando empreendidas pelos que possuem os meios de violência, são terríveis, mas o embuste permanente não está entre eles. Sempre chega o ponto em que a mentira se torna contraproducente. Este ponto é alcançado quando a platéia à qual as mentiras são dirigidas é forçada a menosprezar por completo a linha demarcatória entre a verdade e a falsidade, para poder sobreviver. Verdade ou falsidade - já não importa mais o que seja, se sua vida depende de você agir como se acreditasse; a verdade digna de confiança desaparece por completo da vida pública, e com ela o principal fator de estabilização nos cambiantes assuntos dos homens".

Embora longo este estrato do capítulo deste livro de Arendt  merece ser apreciado e até criticado se for o caso, mas ele serve como um parâmetro para percebermos como em política a arte de mentir é uma verdade inconteste e serve de caminho para que os forjadores de mentiras consigam ludibriar de modo bem convincente as pessoas que ainda não se convenceram de alguma verdade dos fatos vivenciados no cotidiano. Em especial em uma sociedade que vive em função da oralidade mais do que envolvida com a leitura e a interpretação do mundo e das coisas. Vou continuar a re-leitura e selecionarei outros estratos para postar aqui. Espero que estejamos contribuindo para melhorar o esclarecimento e o discernimento das pessoas em relação às abordagens que são feitas diariamente nas mídias sobre os temas de nossa economia e nossa política.

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