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Livro Digital

sábado, 29 de agosto de 2015

BIOECONOMIA, BIODIVERSIDADE E BIODECRESCIMENTO

A narrativa a seguir, extraída do livro de Joseph Townsend (apud HARDIN, 1989), relata em sentido metafórico, o processo de crescimento em uma sociedade ou organização humana, o qual denomino de crescimento amebiano ou não diferenciado ou inorgânico.

O Texto é semelhante a uma lenda ou história do tipo "era uma vez", mas se trata de uma teoria, que poderíamos chamar de neo-malthusiana, formulada em 1786 e que procurava mostrar os efeitos da superpopulação sobre o desenvolvimento de sistemas vivos, antes mesmo de Adam Smith publicar o seu conhecido "A Riqueza das Nações. Vejamos, então, o texto de Townsend:


Nos Mares do Sul há uma ilha chamada Juan Fernández em homenagem ao seu descobridor. Neste lugar remoto, Juan Fernández fundou uma colônia de cabras com um macho e uma fêmea. Este par feliz encontrou em abundância pastos pelo que, sem a menor dificuldade, obedeceu ao primeiro mandamento: crescer e multiplicar-se, até que, com o tempo, sua ilha se encheu de cabras. Antes que isto sucedesse desconheciam a miséria e a necessidade e até pareciam orgulhosas de seu número, porém a partir de então começaram a padecer de fome. Contudo, por algum tempo seguiram-se multiplicando em tal grau que se tivessem o dom do raciocínio haveriam compreendido que se aproximava uma fome. Diante disso, desapareceram primeiro os mais fracos e a abundância ressurgiu. Entraram, assim, em ciclos de felicidade e miséria, com abundância quando a população diminuía e escassez se esta aumentasse; nunca conseguiram a estabilidade, porém quase sempre a quantidade de alimentos era equilibrada. O equilíbrio foi quebrado de vez em quando, seja por epidemias ou pela chegada de um navio em desgraça. Em tais ocasiões, a população se reduzia consideravelmente, porém para compensar a situação alarmante e consolar-se pela perda de seus companheiros os sobreviventes sempre recuperavam de imediato a abundância. Já não temiam a fome, já não se olhavam com desconfianças, todos viviam na abundância, todos estavam contentes e felizes. Assim, o que se poderia fazer considerando uma desgraça se convertia em uma fonte de comodidade e, ao menos para eles, o mal parcial constituía o bem universal.

Para prejudicar os corsários ingleses que invadiam a ilha em busca de provisões, os espanhóis eliminaram as cabras deixando na praia um casal de galgos [uma raça de cães]. Os cães cresceram e se multiplicaram de acordo com a quantidade de alimentos disponíveis; os resultados foram os previstos pelos espanhóis: escassearam os alimentos das cabras. Se estas desaparecessem totalmente os cães também desapareceriam. Isto não ocorreu assim porque muitas cabras se retiraram a níveis inacessíveis para os cães e desciam aos vales só o tempo necessário para alimentar-se com temor e circunspecção; fora as descuidadas e as temerárias poucas se convertiam em presas e só os cães mais alertas, fortes e ativos conseguiam comida suficiente. Estabeleceu-se, assim, uma nova classe de equilíbrio. Os mais fracos de ambas as espécies foram os primeiros em pagar sua dívida com a natureza; os mais ativos e vigorosos preservaram sua vida. É a quantidade de alimentos o que regula a quantidade de população da espécie humana. Nos bosques e no estado selvagem o número de habitantes pode ser pequeno, porém quase ninguém padece de escassez. Enquanto abundem os alimentos, os homens continuarão crescendo e multiplicando-se; cada homem poderá sustentar sua família, ou ajudar aos seus amigos, em proporção direta a sua atividade e sua força. Os fracos dependem da abundância precária dos fortes e os preguiçosos, cedo ou tarde, padecem a consequência natural de sua indolência. Se se introduzisse uma comunidade de bens e ao mesmo tempo se desse a cada homem a liberdade de casar-se, em princípio aumentaria a população, porém não a soma total de sua felicidade, e gradualmente, quando todos estivessem reduzidos à escassez e à miséria, os mais fracos começariam a perecer.

A forma linear como estamos discutindo uma maneira de mudança econômica que possa reduzir o consumismo e a produção de bens baseada em energia não renovável, bem como o obsoletismo programado de produtos que têm suas vidas úteis artificialmente ou tecnicamente reduzidas, a fim de aumentar o consumo e, com isto, a acumulação de riquezas dos investidores e proprietários de empresas, não resultará ou não será nunca efetivada dentro da conjuntura econômica mundial, pelo menos nos próximos 30 ou 40 anos porque o discurso que os cientistas e filósofos do decrescimento realizam não propõem qualquer mudança comportamental.

Para se promover qualquer mudança no sistema econômico mundial tem que se começar com a mudança de comportamento de indivíduos, uma vez que o sistema implantado pelo capitalismo alterou de forma violenta os modelos mentais das pessoas e com isto gerou hábitos nocivos, mas úteis para o crescimento de seus negócios e, deste modo, proporcionando de forma progressiva o aumento individual e familiar de riqueza em detrimento do aumento da pobreza e dos danos físicos e biológicos à natureza, ao ambiente natural.

A história de Townsend procura retratar exatamente um dos caminhos que são seguidos para o condicionamento visando de alguma forma acumular bens em prol de interesses individuais e sem levar em conta a biodiversidade. Alguns dos que discutem o decrescimento até que procuram mostrar fatos, porém não avançam em termos de uma bioeconomia que possa trazer benefícios capazes de, pouco a pouco, ir desconstruindo os modelos mentais que criaram os hábitos e paradigmas que se tornaram os vícios econômicos consumistas que contaminam todas as sociedades em todos os países.

Não apenas devemos discutir o decrescimento econômico, mas de modo efetivo o decrescimento do comportamento que promove o consumismo, o decrescimento populacional até que se consiga formar uma geração sadia, com hábitos sadios, voltada para a simplicidade da vida e para uma vida sem sofisticação e sem artificialidade, no que chamo de biodecrescimento. Com isto não estou incentivando o controle rigoroso da natalidade, mas uma breve interrupção do crescimento populacional, a fim de se poder gerar uma nova população sem os condicionamentos de uma condição Ter de vida e bem direcionada para uma condição Ser de vida. Aí, sim, poderemos voltar a ter um novo e sadio crescimento populacional sem prejuízo para o ser humano e para a natureza. No mais, se percebe nos discursos e debates que se realizam, em especial nos Foros Sociais e contraposição aos Foros Econômicos, são argumentos e falácias os quais não agregam valor à vida e ao ambiente planetário, porque estão presos a um círculo vicioso e tenta repetir o que se fez em termos políticos e econômicos cujos resultados não têm sido bons até agora.

Por isso tenho dúvidas sobre o real valor de uma filosofia de decrescimento que não vai criar nada de novo para a humanidade e que vai repetir os mesmos erros e enganos que geraram o crescimento amebiano em várias regiões do planeta. Portanto, como discurso tudo o que se fez até agora é muito bonito, cheio de palavras de ordem e apelos semelhantes àqueles que os ludditas realizaram durante a Primeira Revolução Industrial. Precisamos interromper o uso abusivo de energia não renovável que vem gerando há séculos o crescimento inorgânico com a total destruição da natureza. Isto é fato e é importante. Porém, precisamos de criar os meios efetivos para que se comece a colocar em prática o crescimento orgânico, no qual tudo o que se produz se fará com a ajuda da Natureza e não em seu detrimento. Ou seja, torna-se necessário que voltemos a aprender com a Natureza como usar os recursos naturais sem destruí-los, mas preservando-os a fim de podermos utilizá-los e reutilizá-los, sempre que for preciso.

Assim, devemos criar uma bioeconomia que vai desenhar diretrizes para uso correto de recursos naturais, aliada a um biodecrescimento em busca de uma geração mais sadia em todos os sentidos: logosférico, biosférico, hilosférico e noosférico, com o que poderemos num futuro (em um novo futuro que pode ser para além das próximas duas ou três gerações) ter no Planeta uma nova raça, um novo ser humano que irá se reproduzir na certeza de que não mais estará promovendo o aumento de uma população doente nestes quatro sentidos do Ser Integral. Desta forma, não devemos fazer o que mostrou a estória relatada por Townsend, como fizemos até agora.


Essa proposta que busca enfocar uma Economia Orgânica não representa retroceder no tempo ao nível de uma primitividade já vivida, mas avançar no tempo procurando promover uma mudança no paradigma consumista e capitalista acumulador de riquezas que não leva em consideração uma vida saudável. Viver de modo saudável para mim não implica em voltar ao passado, ao ambiente do homem primitivo, mas criar um novo ambiente do bem, no qual possamos viver melhor e mais tanto em sentido biológico quanto ecológico e natural. É possível, sim, produzir mais com menos consumo de energia não renovável, com bioenergia e eco-energia de modo a podermos recuperar os danos que foram causados no Planeta nesses mais de 400 anos de exploração desenfreada dos recursos naturais.

Pão, Paz e Liberdade

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